quinta-feira, 19 de junho de 2014

Campo singelo



Campo singelo de margaridas bravias e inocentes
Flores viçosas, alegres, criadas por entre o prado verdejante
Plantas felizes que, se pudessem mover-se, saltitavam contentes
Flores modestas, de beleza selvagem, veias de vida palpitante

Não viram o Sol subir, a cada dia mais um pouco, incapaz de adormecer
Astro flamejante que, sem saber conter-se, lhes cuspiu fogo abrasador
E dias passaram,  o verde esmoreceu e as margaridas viram-se escurecer
Até que um dia o Sol olhou para o prado e viu nele semeada bem fundo apenas dor

As estações sopraram vendavais, derramaram chuva furiosa, mas o prado renasceu
Despontaram devagar, um a um, amarelos e cor-de-laranja viçosos, verdes valentes 
Os narcisos estrangularam as raízes das plantas de dor, e cresceram orgulhosos e insolentes

Prontos para cobrir o mundo de cores e alegria, como um prado que a tudo já venceu
Não sabem que o vento os persegue, e que em breve os vendavais tudo vão arrancar,
E os narcisos vão ser soprados pelo mundo afora, e noutros prados vão vingar…



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Narciso bravio




Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
Prado frio e triste de terra quase estéril,  seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…

segunda-feira, 9 de junho de 2014

III Jogos Florais dos Bonjoanenses

Segundo lugar em Prosa nos III Jogos Florais dos Bonjoanenses, com o texto:
Reclusa
Não nasci para ser reclusa, mas hoje aqui estou, encerrada numa cela escura onde entrei pelo meu próprio pé. Nasci nos campos floridos da minha terra, debaixo de uma árvore onde a minha mãe se sentou a descansar numa tarde de calor. Não nasci para ser reclusa, enterrada no silêncio ensurdecedor destas paredes de pedra fria e impenetrável, mas aqui estou, já tão habituada ao silêncio que, quando um pássaro canta mais alto pela fresta da pequena ranhura da minha cela a que chamam janela, acordo do mais profundo sono. Cresci numa terra alegre onde a música se ouvia nos campos, canções ritmadas pensadas para fazer esquecer o cansaço das colheitas, e aprendi a murmurar melodias a todo o instante, como a minha mãe fazia. A minha mãe era feliz, disso não deixava ninguém duvidar. Sorria todo o dia e cantarolava mesmo quando estava na pocilga a tratar dos animais. Acordava todos os dias num instante, como se não pudesse esperar para começar o dia, e no seu andar podia adivinhar-se uma dança prestes a despertar. Não nasci para ser reclusa, à mercê dos outros, constantemente a ter de imitar o que outros fazem, e nunca poder ser “Eu”, eu que sempre disse tudo o que pensava, e corria para o topo do monte onde só os pastores mais destemidos levavam os rebanhos de ovelhas, só porque de lá, podia ver o mundo todo aos meus pés. Não, não teria pensado por um instante que um dia só conseguisse vislumbrar um recorte do topo do monte, porque a estreita ranhura da minha cela a que chamam janela, a mais não me deixa.E daqui nunca saio, desta cela feia e escura, deste lugar de almas sofridas. Morri a poucos passos da árvore onde a minha mãe se tinha sentado, tantos anos antes, para descansar da ceifa, quando sentiu as dores e afastou os joelhos para me deixar passar. Morri no meu campo florido, numa tarde de Primavera em que o mar de cores das flores bravias que cresciam em todos os cantos rivalizavam com o brilho dourado dos campos de trigo, e o verde da relva viçosa cobria o meu monte de vida. Morri ali, instantes depois de rir alto, com alegria profunda. Morri ali, cercada por quase todos aqueles que tinham marcado o meu caminho, menos um, o que me matou. Não nasci para ser reclusa, para definhar por falta de Sol e ar, mas aqui estou, e sinto os pulmões cansados da asfixia dos anos que virão. Sinto a pele encarquilhar devagarinho, porque ela também precisa da vida do Sol, e eu estou enterrada no escuro eterno. Não nasci para ser reclusa, para ver ano a ano a passar sem saber quantos se passaram senão contando as marcas dos dias na parede da prisão onde me encerrei pelo meu próprio pé. Nasci para receber cada novo ano a tiritar de frio mas a saborear as rajadas de vento gelado da Natureza com um sorriso. Nasci para cheirar a Primavera no desabrochar das flores que se escondem todo o Inverno com receio dos vendavais. Nasci para sentir a languidez do calor no pico do Verão, e esconder-me na sombra a conjurar uma brisa. Nasci para a melancolia própria do Outono, quase um espinho de saudade espetado no coração, quando as árvores começam a ficar douradas, e o vento leva-lhes folha a folha. Não nasci para ser reclusa, e saber que, no dia em que tudo findar, estarei aqui, neste mesmo lugar, nesta mesma escuridão, com um xaile sobre os ombros para combater o ar gélido e a humidade que me deixam a pele gretada e o cabelo frágil, como se também dele a vida tivesse escorrido. Nasci para partir já velhinha, com um sorriso nos lábios tão contagiante quanto o da minha mãe, depois de ter amado muito, ter visto nascer de mim vida, uma vez e outra. Nasci para embalar os meus filhos nos braços com o olhar de uma mulher completa, e temer nada. Nasci para partir com a mente recheada de memórias, como pequenas fotografias a preto e branco de cada um dos momentos que marcam o caminho.
Sim, não nasci para ser reclusa, mas no dia em que partir aqui estarei, encerrada numa cela escura.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Girassóis



Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Flores alegres e tão cheias de vida
Ao longe admirado como os mais belos prados
Ao perto adorado com paixão incontida

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Arrancados pela raiz pelo inclemente vendaval
Mãos cruéis que rasgam a terra sem nenhuns cuidados
Tempestades que arrancam cada girassol do seu pedestal

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Onde alguém um dia, quando o vendaval pára de soprar 
Cansado de acreditar no ouro dos campos amargurados

Planta com ternura uma túlipa na terra já seca e salgada
Uma túlipa tão delicada e sincera que parece não poder vingar 
E a flor desperta viçosa e espreguiça-se ao nascer da alvorada… 


segunda-feira, 2 de junho de 2014

III Jogos Florais do Clube de Futebol “Os Bonjoanenses” Faro - 2014

III Jogos Florais do Clube de Futebol “Os Bonjoanenses” Faro - 2014
2º lugar (texto Reclusa) e menção honrosa (texto A praia) na categoria Prosa. 




Reclusa

Não nasci para ser reclusa, mas hoje aqui estou, encerrada numa cela escura onde entrei pelo meu próprio pé. Nasci nos campos floridos da minha terra, debaixo de uma árvore onde a minha mãe se sentou a descansar numa tarde de calor. Não nasci para ser reclusa, enterrada no silêncio ensurdecedor destas paredes de pedra fria e impenetrável, mas aqui estou, já tão habituada ao silêncio que, quando um pássaro canta mais alto pela fresta da pequena ranhura da minha cela a que chamam janela, acordo do mais profundo sono. Cresci numa terra alegre onde a música se ouvia nos campos, canções ritmadas pensadas para fazer esquecer o cansaço das colheitas, e aprendi a murmurar melodias a todo o instante, como a minha mãe fazia. A minha mãe era feliz, disso não deixava ninguém duvidar. Sorria todo o dia e cantarolava mesmo quando estava na pocilga a tratar dos animais. Acordava todos os dias num instante, como se não pudesse esperar para começar o dia, e no seu andar podia adivinhar-se uma dança prestes a despertar. Não nasci para ser reclusa, à mercê dos outros, constantemente a ter de imitar o que outros fazem, e nunca poder ser “Eu”, eu que sempre disse tudo o que pensava, e corria para o topo do monte onde só os pastores mais destemidos levavam os rebanhos de ovelhas, só porque de lá, podia ver o mundo todo aos meus pés. Não, não teria pensado por um instante que um dia só conseguisse vislumbrar um recorte do topo do monte, porque a estreita ranhura da minha cela a que chamam janela, a mais não me deixa.  E daqui nunca saio, desta cela feia e escura, deste lugar de almas sofridas. Morri a poucos passos da árvore onde a minha mãe se tinha sentado, tantos anos antes, para descansar da ceifa, quando sentiu as dores e afastou os joelhos para me deixar passar. Morri no meu campo florido, numa tarde de Primavera em que o mar de cores das flores bravias que cresciam em todos os cantos rivalizavam com o brilho dourado dos campos de trigo, e o verde da relva viçosa cobria o meu monte de vida. Morri ali, instantes depois de rir alto, com alegria profunda. Morri ali, cercada por quase todos aqueles que tinham marcado o meu caminho, menos um, o que me matou. Não nasci para ser reclusa, para definhar por falta de Sol e ar, mas aqui estou, e sinto os pulmões cansados da asfixia dos anos que virão. Sinto a pele encarquilhar devagarinho, porque ela também precisa da vida do Sol, e eu estou enterrada no escuro eterno. Não nasci para ser reclusa, para ver ano a ano a passar sem saber quantos se passaram senão contando as marcas dos dias na parede da prisão onde me encerrei pelo meu próprio pé. Nasci para receber cada novo ano a tiritar de frio mas a saborear as rajadas de vento gelado da Natureza com um sorriso. Nasci para cheirar a Primavera no desabrochar das flores que se escondem todo o Inverno com receio dos vendavais. Nasci para sentir a languidez do calor no pico do Verão, e esconder-me na sombra a conjurar uma brisa. Nasci para a melancolia própria do Outono, quase um espinho de saudade espetado no coração, quando as árvores começam a ficar douradas, e o vento leva-lhes folha a folha. Não nasci para ser reclusa, e saber que, no dia em que tudo findar, estarei aqui, neste mesmo lugar, nesta mesma escuridão, com um xaile sobre os ombros para combater o ar gélido e a humidade que me deixam a pele gretada e o cabelo frágil, como se também dele a vida tivesse escorrido. Nasci para partir já velhinha, com um sorriso nos lábios tão contagiante quanto o da minha mãe, depois de ter amado muito, ter visto nascer de mim vida, uma vez e outra. Nasci para embalar os meus filhos nos braços com o olhar de uma mulher completa, e temer nada. Nasci para partir com a mente recheada de memórias, como pequenas fotografias a preto e branco de cada um dos momentos que marcam o caminho.
Sim, não nasci para ser reclusa, mas no dia em que partir aqui estarei, encerrada numa cela escura.