sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Prece




Um rio de lágrimas grossas e salgadas
Desce pelo rosto até aos lábios unidos em prece
Uma ladainha demente de almas atormentadas
O rosto marcado pela saudade que não envelhece

Querer é o castigo que carrega no peito
Esta ânsia que acorda e rouba o sono
Este desejo sem fim tão longamente insatisfeito
As saudades que caem como folhas velhas no Outono

Saudades que renascem com cada nova Primavera
Que não queimam ao calor abrasador do Verão
Nem conhecem Invernos que não sejam de espera

Falta de ti que não abranda nem  conhece fim
Corpo e alma sequiosos de ti, cegos de razão
Sonhadores do instante perfeito em que mergulhas em mim...
   


Não te deixes ficar por medo de partir





Não te deixes ficar por medo de partir
Sente a minha mão na tua e acredita
Estou aqui, e não vou deixar que o mundo te volte a ferir
Rezo por ti e sei que a tua morte será bendita 

Roguei pela vinda dos céus de dois anjos de alma bondosa   
Roguei por eles com o meu canto de cotovia
Contei-lhes da dor que carrega esta Mulher corajosa
E confessei que ver-te descansar seria a minha maior alegria

Pedi-lhes que te dessem a mão quando a minha já não te poder alcançar
Que te levassem num terno abraço para o campo florido que te espera  
E te entregassem onde a amazona guerreira do Passado, ainda impera

Enquanto eu fico aqui, a ver-te partir, com o peito apertado a murmurar
“Adeus minha avó amada”, e uma prece nos lábios sussurrada:
“Rosas, túlipas e margaridas… Cuida de todas com a tua mão abençoada!”

Os meus fantasmas





Quando comecei a escrever não havia mais do que ideias a voar, como pássaros selvagens, na minha mente confusa. Tentei apanhá-los com as mãos nuas, mas eles continuaram a escorrer-me pelos dedos, e a circundar a minha mente vezes sem fim. Foi então que os tentei segurar com um lápis, e eles docemente foram pousando na grafite prateada, um a um. Primeiro uma frase, depois um enredo, e quando estes voaram para longe, uma personagem, primeiro enevoada, como uma mulher num campo coberto pelo nevoeiro de uma madrugada de Inverno, depois, a cada linha, a cada página, uma mulher descoberta pelo amanhecer vagaroso de um dia de Primavera.
Aconcheguei-me no cadeirão, com aquele mundo a descobrir assente nos joelhos, e escrevi a primeira frase. Depois a segunda, e quando comecei a terceira, senti o ar à minha volta a mudar, e o caminho começou a clarear.
E foi então que eles surgiram, uns taciturnos e desconfiados, como se temessem que eu não os soubesse representar e outros tão alegres que pareciam dançar. Uns apareceram-me ainda crianças, meninas traquinas de saias rodadas, outros já homens feitos, mas ainda cheios de esperança. Ao canto da sala surgiu-me um velhote de rosto cansado, mas um sorriso de contentamento que me encheu a alma. Ao meu lado as três, a pequena que não conhecia a morte; a mulher determinada com a ceifa empunhada; e a mulher de rosto sulcado e olhar a raiar a ternura.
E foram-se juntando à minha volta, estes fantasmas, a sussurrar-me ao ouvido para que lado o rio devia correr.
Vi as palavras escorrerem pela ponta do lápis com uma rapidez tamanha que lutei para as acompanhar com o movimento da minha mão, e as figuras foram-se instalando ao meu lado, cada uma no seu recanto, a olharem-me com determinação. Os sussurros foram-se tornando mais altos, cada vez que, na minha cobardia, temia o rumo da história; ou quando por arrogância achava saber mais que eles; e dei-me por vencida. Deixei-os entrar no meu mundo, e guiar-me pelas estradas sinuosas do interior agreste, pelos campos de trigo e centeio, e pelas casas simples caiadas de branco e azul, com poiais de pedra para descansar ao sabor da brisa numa tarde de calor. Guiaram-me por trincheiras imundas de lama e sangue, e foram eles que finalmente me arrastaram de lá quando me quis deixar lá ficar., e me fizeram descansar à beira da ribeira, com os pés a mergulhar na água fresca, e subir a colina íngreme, para poder vislumbrar o horizonte imenso que descobriam em mim.
E página após página foram-se tornando mais reais, mais presentes, mais Eu, até que Eu deixei de existir.
Depois deixaram-me com um adeus saudoso dos que sabem que precisam descansar nas páginas que lhes cabem, e deixar lugar para os que ainda têm o que contar. Vi-os partir com lágrimas nos olhos, e por mais de uma vez tive de largar o lápis e secar o olhar, para poder continuar. Vi-os ir, um a um, na altura em que quiseram, quando cobriram a minha mão com a deles, e disseram: “O meu caminho terminou” e aceitei cada morte como a de um ente querido.
Ela continuou comigo, primeiro a menina traquina de vestido rodado que não sabia ser criança; depois a mulher valente de lenços coloridos que lhe cobriam os cabelos negros revoltos; e por fim a mulher enlutada com o coração mais terno do que sabia aceitar. Discuti com elas, porque nenhuma queria perceber que faziam parte da mesma linha, que eram continuações umas das outras, mas acabámos por nos respeitar. Aprendi a amá-la, e ela tornou-se parte de mim, tão importante que, quando me disse “Adeus”, morreu-me um pedaço da alma, e ao vê-la partir, com a sua saia de algodão grosseiro e o lenço negro a cobrir-lhe os cabelos já grisalhos, fiquei seca de palavras, com o lápis na mão, a aguardar apenas a palavra “Fim” para saciar a obsessão.

A minha casa sonhada




Casa, palavra tão pequenina no seu tamanho
Casa, palavra tão gigante no seu valor
Casa, tão querido esse meu sonho…
Anos longe e ainda no peito o mesmo fervor

A mesma tristeza, a angústia que oprime o coração  
O coração estrangulado pela ânsia de regressar
A chaga aberta de quem se sente perdida na imensidão
A dor de todos os dias acordar fora do ninho que continuo a recordar

A vontade, a simples vontade de me aninhar no lar tão almejado
O lar que sonhei em menina, o lar que quis construir já crescida
O país onde nasci e cresci e de onde me roubaram, esse país tão despedaçado…   

A sensação de não pertencer aqui nem ali, a sensação de estar perdida
O sonho de, por um momento, para sempre talvez, voltar a sentir-me parte desse país amado
Voltar a sentir-me, por um instante, para sempre talvez, completa!