segunda-feira, 6 de maio de 2013

Publicações - Antologia da Saudade


Décadas

Décadas passadas e ele ainda marca o caminho
Anos de solidão e de espera sem angústia nem pesar
Minutos que o relógio contou com um tiquetaque baixinho
Saudade que não cessa nem tem olvidar

Saudade da criança que se deitou no leito
Da menina que não conhecia a verdade
Da mulher com um furacão no peito
Que se descobriu naquela noite sem piedade

Pirata dos sonhos da menina que há muito morreu
Pirata negro de olhar profundo que a reconheceu
Saudade da mulher que nessa noite nasceu

Saudade que não tem fim e penetra a mais forte couraça
Saudade que veio de outras vidas onde o amor se viveu
Saudade que não mata nem fere, morte que não magoa, vida que se abraça.


Um instante

 

Um instante apenas
Num oceano de vidas que nos passam ao lado
Um breve conto num romance grande demais
Um segundo em anos de espera

Um milagre, magia inesperada
Um toque que faltou e não fez falta,
Um sorriso dado na solidão menos só,
Palavras vãs que nos agasalham ainda...

Um sentimento discreto, arrebatador,
Uma loucura doce e bela,
Um sonho ambicioso demais

Um adeus que custa a nascer,
Que ninguém é capaz de pronunciar
Uma ânsia ainda forte, uma sede que nos exaspera
Um adeus que ecoa nas mentes,
Que fere o peito,
Um adeus que não somos capazes de dizer.


Saudade

A saudade nunca deixa de latejar
No peito cansado da guerreira
A saudade nunca deixa de angustiar
O coração já gasto da mulher

A saudade nunca deixa de insistir
Nas pernas acorrentadas da prisioneira
A saudade nunca deixa de ferir
Os olhos acostumados com a escuridão da menina

A saudade, sentimento estranho que nunca a chega a abandonar
Deixa-lhe a alma em pedaços, e não lamenta a morte
A saudade que ela abraça como um velho amigo que demorou a chegar

A saudade, que ela esconde porque não quer que a vejam como menos forte
A ânsia tremenda que carrega no peito como que a uma criança lamuriosa meio adormecida
A saudade, que lhe já vinha cravada na alma, de outros tempos, de outra vida…



Prece

Um rio de lágrimas grossas e salgadas
Desce pelo rosto até aos lábios unidos em prece
Uma ladainha demente de almas atormentadas
O rosto marcado pela saudade que não envelhece

Querer é o castigo que carrega no peito
Esta ânsia que acorda e rouba o sono
Este desejo sem fim tão longamente insatisfeito
As saudades que caem como folhas velhas no Outono

Saudades que renascem com cada nova Primavera
Que não queimam ao calor abrasador do Verão
Nem conhecem Invernos que não sejam de espera

Falta de ti que não abranda nem conhece fim
Corpo e alma sequiosos de ti, cegos de razão
Sonhadores do instante perfeito em que mergulhas em mim...