segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Portugal dos mansos




Sempre ouvi dizer que os Portugueses são mansos e tal é essa a nossa reputação que nestes meses de inquietação e movimentos de protesto os ingleses parecem não ter problemas nenhuns em comprar casa no Algarve ou pelo menos ir passar as suas férias a costas lusas, sem qualquer receio de bombas, atentados, tiroteios ou qualquer outro evento catastrófico.
Ninguém espera que os Portugueses deixem de ser “mansos” e que de repente as manifestações de protesto contra as medidas da austeridade se tornem em chacinas como na Grécia, ou em momentos de agressão policial desmedida como em Espanha. E a verdade é que estão certos, ou pelo menos parcialmente certos. Nós, Portugueses de alma cheia de saudosismo e um quase prazer no sofrimento, não vamos chegar à agressividade desmedida da Grécia, nem os nossos polícias, também eles com ordenados insatisfatórios e protecção inadequada, nos vão dar com o cassetete até nos partirem o crânio. Pelo menos não neste caso, que a violência policial é também em Portugal uma realidade.
Mas pelo que tenho tido oportunidade de ver nos protestos dos últimos meses, parece-me que, pouco a pouco, a fome e a falta de alternativas, nos está a fazer revoltar mais e mais, e talvez dentro em breve sejamos um povo que esquece a mansidão em prol da luta pela sobrevivência.
Pelo menos é o que eu espero e sonho para este meu Portugal que também eu tive de deixar para ter uma vida melhor. O que espero e sonho para Portugal é que todos compreendam que a revolta é legítima, que querer dar de comer aos nossos filhos, ver os nossos jovens terem uma profissão que os satisfaça, ver os nossos animais protegidos convenientemente e ver os nossos idosos viver com dignidade; não é menos do que um direito, e por ele temos de lutar.
Não sonho um Portugal manchado de sangue e violência, porque esse não é o caminho que sabemos marchar, mas também não quero uma terra deserta de jovens e esperança, onde a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade são apenas conceitos tão estrangeiros que já nem vale a pena comemorar com um feriado bem merecido, a Implantação da nossa República.
Não sonho com um país que se verga aos desejos de todos e para isso perde a cultura e a identidade, muda a ortografia para satisfazer uns, corta nos subsídios para satisfazer outros, e esconde a solidão e tristeza do seu povo com fotografias de paisagens infindas de beleza inigualável, cortando nelas as casas gastas em ruínas onde as populações vivem, as estradas sem condições que percorrem, e a procura interminável por empregos para os jovens que não querem deixar nessas terras isoladas as famílias que ainda vivem, como há centenas de anos, do cultivo da terra.
O que eu sonho para Portugal é um caminho tortuoso de revolta e protesto, onde as vozes não se calem e não se cantem as músicas da liberdade, as do 25 de Abril, apenas por costume, e que se volte a sentir na alma a importância de cada letra, de cada acorde. Sonho com um país onde o futebol não seja a única razão para gritar de alegria ou tristeza, e onde todos saibam que o voto é um direito, mas mais do que isso, é um dever, e que é responsabilidade de todos quem nos governa. Sonho com um país que não se esconde no “Eles são todos iguais” para justificar a apatia política, e com Portugueses que sabem que é realmente “o povo quem mais ordena”. Acima de tudo, sonho com um povo que não se cale e ordene, um povo que lute com as armas que tem, mesmo que pensem que as palavras são armas poucochinhas, e não pare até que Portugal seja um paraíso à beira-mar plantado, onde as crianças podem rir com confiança no futuro e pais que têm como as alimentar e proteger; onde os jovens podem sonhar com um futuro feliz e uma profissão que os realize sem temerem ter de deixar para trás a família, os amigos e o seu país; onde os animais são tratados com dignidade e compaixão e protegidos como seres vivos que são; onde os idosos não são abandonados à sua sorte para morrerem sós; e onde a Liberdade, a Fraternidade e a Igualdade não só são realidades, como merecem um feriado para as comemorar.
Eu sonho, tu sonhas, ela sonha, ele sonha, nós sonhamos, eles sonham. E eu interrogo-me: “Se todos sonharmos, se todos lutarmos, se todos acreditarmos, se todos nos revoltarmos, se todos gritarmos até que a voz nos doa, até onde somos capazes de ir? “.