quarta-feira, 12 de setembro de 2012

À beira da lagoa




Nasci à beira da lagoa, num recanto mal escondido por entre as árvores onde a minha mãe, depois de uma longa caminhada, se agachou e gemeu por pouco mais de uns minutos, até que eu escorri de dentro dela, num rio viscoso de vida e sangue. Dizem que ela me apanhou da cama de folhas onde as outras mulheres me aconchegaram, ergueu-me até ter os meus olhos à altura dos dela, afastada do seu peito, e me fitou por longos instantes. O que ela viu de tão horrível não sei, mas dizem-me que me devolveu, com a cara contorcida num esgar, à minha cama de folhas douradas de Outono e, sem reparar na chuva que entretanto tinha começado a cair, nem se importar com o rio viscoso que lhe continuava a escorrer pernas abaixo, continuou a sua caminhada, sem uma palavra.

Tinha já mais de dez anos quando soube que aquela era a minha mãe. Durante essa década em que a minha vida começou e as minhas feições se foram formando até deixar entrever o rosto que tive de encarar ao espelho todos os dias da minha vida, redondo e salpicado de sardas gordas, não trocámos uma palavra, eu e a mulher que se agachou à beira da lagoa e me deixou escorrer para este mundo.
Andávamos sempre desencontradas ela e eu, sem que eu percebesse que era uma dança ensaiada por ela para não ter de me encarar. Não sabia então o que ela viu em mim naqueles momentos em que respirei o ar fresco da primeira manhã da minha vida, a primeira vez que senti uma golfada de vida a encher-me os pulmões. Com o passar dos anos perguntei-me isso mesmo vezes sem conta, e suspeitei que teria sido algo realmente horrível, porque mesmo aqueles que me amavam por ali pareciam recordar com inusitada claridade a expressão no rosto dela quando me pegou e me devolveu à terra, deixando-me para trás. Ao início não me quiseram contar, tiveram receio que eu me preocupasse demais com o olhar dessa mãe que me abandonou à nascença, apesar de nunca ter estado a mais de um quilómetro de distância de mim. Mas quando me contaram, quando eu percebi que todos a temiam porque ela sabia demais, fiquei fascinada. Seguia-a para todo o canto, escondida nos arbustos e por entre as dunas, e com o passar do tempo aprumei o meu talento para a camuflagem, e tornei-me parte das árvores, das dunas, das florestas, onde ela apanhava frutos ou caçava. Nunca me apanhou, a mulher que se agachou à beira da lagoa e me deixou escorrer para este mundo, mas depois percebi que ela nunca me procurou, nem nunca me quis descobrir. Parecia perfeitamente contente com o silêncio que reinava entre nós, e a distância que nos separava. Não mais do que duas tendas, muitas vezes, mas o suficiente para vivermos em mundos diferentes.
Ela era bonita, sempre pensei isso, mas guardava no olhar um segredo que sempre me assustou. Nunca lhe fitei o olhar por muito tempo, tinha medo de descobrir o que afinal ela tinha visto em mim que a desgostasse tanto que nunca me quis sequer embalar. Tinha os cabelos negros, os mais negros de todas as mulheres por ali, pretos como carvão, e a pele dourada do Sol. Nunca a ouvi rir, mas o olhar animava-se quando pescava ou caçava, e muitas vezes passava dias embrenhada pelos bosques por onde andávamos, e regressava com os ombros pesados de animais que tinham dado a sua vida para que pudéssemos viver. Depois de os depositar no centro do acampamento, retirava-se e nunca os comia. Não sei se algum dia chegou a comer alguma carne, porque dizia que os bichos que matava, matava-os para a tribo, não para ela, e só a vi comer maçãs, batatas e outras bagas que apanhava pelo caminho enquanto nós saboreávamos a carne que nos trazia.

Vinguei no colo de muitas mulheres que se apiedaram dos meus balidos de fome e me deixaram sugar do seu peito o meu sustento. As mulheres da minha tribo pariam amiúde, e era raro vê-las sem uma criança ao colo ou uma no ventre, e não lhes custou partilhar os seios fartos comigo, que agradeci a cada uma mamando com uma voracidade singular, diziam-me.
De todas as mulheres da tribo, as únicas a quem não conheci o peito foram as anciãs, as que já o tinham seco e gasto, a mulher que se agachou à beira da lagoa e me deixou escorrer para este mundo, e a única mulher da tribo que nunca tinha tido filhos. Essa, a quem com o passar dos anos chamei mãe, chorava dia e noite de tristeza porque tinha o ventre seco e não havia semente que lá criasse vida, até que me colocou nos braços e mesmo com o peito seco, me soube embalar como uma mãe. A ela aprendi a chamar mãe, e com ela cresci, agarrada às saias de cores garridas que usava, e nas noites de tempestade, quando as tendas ou as caravanas abanavam até parecer que o mundo ia acabar, dormia aconchegada no corpo dela, e não tinha medo. E quando ela me olhava, e fazia-o tantas vezes, com um fascínio estranho de quem descobre uma filha que não pode gerar, o seu olhar jamais se enchia de medo ou horror. Apenas amor.
Mas ela não sabia mais, ela não era como a outra, a de cujas entranhas escorri. Essa sabia ver mais além, via a sorte das pessoas na palma das mãos e nas cartas, e descobria em volta de cada pessoa uma cor que instintivamente compreendia. Quando ela ficava por dias a fio na floresta ou nos bosques, falava com os animais e com as plantas, e trazia frascos cheios de ervas que usava para unguentos e chás. Enquanto as outras mulheres iam para as cidades apregoar os seus talentos divinatórios, que não tinham mas sabiam aparentar, ela ficava para trás, a única que realmente poderia saber o que o amanhã esperava a esses pobres crentes das cidades que dispensavam as últimas moedas por uma esperança.
Eu também aprendi a reconhecer a falta de amor no rosto de uma mulher, a ganância no jeito de um homem, o pecado que quer ser perdoado na angústia de outro, e a dizer-lhes as palavras exatas para lhes aplacar o coração e a alma, e os encher de sonhos e fé.
Nunca tentei ver de verdade na palma das mãos nem nas cartas que depositava quase ao acaso num lenço colorido estendido no chão, nem mesmo depois de saber que tinha sido ela quem me tinha parido, aquela que todos nós temíamos. Não havia por ali quem a compreendesse, e se ela era parte da tribo, também é verdade que estava muito longe de nós, num outro mundo onde fingir a magia não é preciso porque a magia é real. Todos imaginavam como seria olhar o mundo com os olhos dela, aqueles olhos de falcão que pareciam avistar tão longe, mas tinham medo de lhe perguntar. Nenhum deles queria saber a sua sina, embora lessem a sina dos outros por onde passavam.

Quando tinha treze anos decidi que tinha chegado a hora de falar com ela. Já era quase uma mulher e queria entender o que é que o meu olhar tinha de tão terrível que a tinha feito abandonar-me sem nunca olhar para trás. Acordei numa manhã como as outras, mais decidida que nunca, e fui até à tenda dela, pequena mas suficiente para ela, até porque mais ninguém a queria partilhar. Entrei devagar, com o coração a começar a palpitar tão forte que parecia capaz de rebentar as minhas costelas e simplesmente começar a correr pelo caminho de terra até à vila vizinha, e chamei por ela com a voz sumida, não sei se de medo ou excitação.
Ela estava deitada ainda, apesar de ser já quase de tarde e ela ser sempre uma das primeiras a levantar-se e atiçar a fogueira para aquecer o chá para os restantes, e parecia tranquila demais. Não se mexeu quando entrei na tenda, nem se virou para olhar quando derrubei um frasco com ervas que ela tinha na mesa. Foi então que o meu corpo se encheu de frio, um frio tão intenso que comecei a tremer por completo, e percebi que ela ainda ali estava, mas já tinha deixado o corpo. Senti-a sair da tenda e pelo canto do olho quase consegui ver a direção que tomou, mas rapidamente a perdi de vista, e fiquei só naquela tenda com o corpo da mulher que se tinha agachado, treze anos antes, à beira da lagoa, e me tinha deixado escorrer para este mundo, num rio de sangue.

Poucos anos depois, quando me tornei mulher à beira da mesma lagoa onde escorri para a vida, senti-me mudar. Não foi apenas porque naquele entardecer afastei as pernas para deixar aquele quase desconhecido entrar em mim, nem foi o peso dele no meu corpo, nem sequer o movimento rítmico do prazer. Também não foi senti-lo semear vida em mim, que esfreguei com vinagre e limão com o mesmo empenho com que o recebi no meu corpo.
Naquele entardecer, enquanto sentia a terra seca a arranhar-me as costas naquele movimento que me soube tão natural, fitei o Sol a morrer devagarinho, enquanto a Lua ia subindo no céu a escurecer, quase lado a lado, um a morrer e outro a despontar, tão diferentes mas tão mágicos, e fiquei enfeitiçada por ambos. Quando a Lua chegou alto no céu já azul-escuro, quase preto, e lançou a sua luz pálida sob as árvores e desenhou sombras na água da lagoa, ele partiu e eu fiquei ali, sozinha, uma mulher. Levantei-me nua e aproximei-me da água devagar, com o corpo vivo e animado, e ainda a tremer de emoção. Senti o calor do luar no meu corpo e fechei os olhos, deixando-me inundar pela sensação daquele calor estranho, impossível. Acho que foi nesse momento, quando senti o calor tão real, tão poderoso, do luar, que percebi que havia magia em mim, verdadeira magia, não a que todos tão bem fingíamos e que só a mulher que me tinha esquecido numa cama de folhas douradas de Outono, sem olhar para trás, realmente conhecia. Ajoelhei-me à beira da lagoa, com o corpo sacudido por ondas intensas de um prazer ainda mais extraordinário do que o que tinha sentido horas antes nos braços de um desconhecido, e senti cada sopro de magia que existia no ar à minha volta. Fitei a Lua, apaixonada por aquela esfera amarela que parecia brilhar especialmente para mim, e depois baixei o olhar, seguindo a luz do luar por sobre a água, até encarar o meu próprio rosto refletido na água calma da lagoa. Fitei-me como se me estivesse a ver pela primeira vez, e foi então que percebi, foi então que vi. Nessa noite, à beira da lagoa, com o rosto refletido no espelho da água da lagoa, pude ver o que aquela mulher de quem escorri, tantos anos antes, tinha discernido no meu rosto acabado de nascer, ainda ensanguentado e assustado com o mundo. Nessa noite, em que fui possuída por um homem comum que não me marcou demais, e pela magia que me acompanharia até ao dia da minha morte, vi o meu verdadeiro rosto pelos olhos da mulher que se agachou por ali para me fazer nascer, e percebi porque é que ela me tinha deixado na terra, abandonada e esquecida, e tinha continuado a sua caminhada sem olhar para trás.