segunda-feira, 30 de julho de 2012

A praia




Eu sou portuguesa. Nasci no Sul de Portugal, à beira de uma praia de areias douradas pelo Sol, com o som do mar no peito e o cheiro de sal cravado na pele.
Cresci com as marés e olhei para a Lua todas as noites, grande e gorda no céu escuro, enquanto me deixava adormecer com o sibilo calmante das ondas. Dei os meus primeiros passos na areia fina da praia e fui baptizada com água salgada naquele templo da natureza.
Nunca quis riquezas, nem sequer sonhei em sair da minha praia amada e ver o mundo. Não havia nada no mundo lá fora que me interessasse, se tinha a areia nos pés e o horizonte infinito para fitar. Não queria conhecer terras frias onde a neve cobre de um manto branco os montes e vales, nem queria conhecer os desertos intermináveis de areia seca que muda com o vento. Não queria voar, nem queria marcar o mundo com a minha pegada. Queria apenas nadar na minha praia, sentir o calor aliviado pela frescura da água do mar, e sentir o corpo vivo.
Mas um dia a tragédia abateu-se. Era Domingo, mas não foi um dia sagrado. Os ventos ficaram furiosos e a chuva fustigou cada casa, cada pedra, com uma raiva desmedida. Não sei o que tinhamos feito para motivar aquela fúria, mas fomos estraçalhados por ela. Não houve pedra que ficasse por revirar na praia e a areia fina, tão delicada, espalhou-se por quilometros e esvaziou o nosso recanto. O mar ficou cheio de lixo que veio pelo ar, roubado de quintais e ruas à volta. E nós ficámos destituidos da nossa praia. Eu fui roubada do meu sonho.
Coloquei a mochila ás costas e comecei a minha viagem em busca de um paraíso para assentar. Subi o país e procurei na capital, mas a confusão da grande cidade assolou-me e num instante me senti a rodopiar, como um pião que não pára, e voltei a fugir, a sentir-me cada vez mais só e perdida.
Atravessei mares e encontrei terras secas e praias rochosas onde não havia lugar para areias finas, caminhei e encontrei montanhas altas e vales profundos, repletos de animais que olharam para mim espantados por estar tão longe de casa. Falei com as vacas, as cabras, as ovelhas e as lebres nos campos, e montei-me nos póneis e cavalos que me levaram mais adiante e se despediram com um “Boa sorte” relinchado com um brilho no olhar.
Encontrei pequenas cidades e vilas onde todos me cumprimentaram como se me conhecessem há muito tempo, mas ninguém me soube dizer onde eu pertencia.
Dormi todas as noites ao relento, a chorar as saudades da minha praia mágica, e com o passar dos dias o aroma a sal na pele desvaneceu. Sonhei com as ondas revoltas das noites de Inverno, e com o sabor das suas linguadas quando eu passeava ao longo da costa, sem acreditar que o mar podia ter fim, e acordei todas as manhãs a sentir-me estrangeira.
Procurei como uma peregrina a sentir a alma a perder-se ao longo do caminho, sequiosa de Sol e água salgada.
Um dia cheguei a uma terra escura antes da madrugada e exausta deixei-me tombar, adormecida pelo som das ondas que imaginava todas as noites. quando o Sol tornou a noite em dia, e me obrigou a abrir os olhos e enfrentar mais uma jornada de saudade, olhei em volta e vi uma praia de areias douradas e o mar a ondular vagarosamente à minha frente. Esfreguei os olhos, sem conseguir acreditar que tinha encontrado um lugar tão belo quanto a minha praiazinha. Olhei em volta e percebi, com um sorriso largo que me curou todo o cansaço. Estava em casa.


Uma Portuguesa em Inglaterra – As minhas idas ao supermercado


Uma das minhas actividades favoritas aqui em Inglaterra é ir ao supermercado. Não se preocupem que não vou discorrer sobre preços nem produtos, e muito menos fazer publicidade às cadeias de supermercados. Até porque o que eu gosto mesmo é de ir ao supermercado, nem interessa qual é, porque todos eles têm aquilo que realmente preciso. Sim, sei que pode parecer estranho, mas sinceramente, adoro ir ao supermercado. E porquê, perguntam vocês? Porque, por motivos que eu completamente desconheço – duvido que sejam os ordenados, que segundo sei não são lá essas coisas -, 90% dos empregados de supermercado são simpáticos e tratam os clientes por “Love” (Amor) e “Dear” (Querida) sem qualquer contenção.
Foi uma das boas surpresas de viver aqui, saber que o mito de que os ingleses são frios é apenas isso, um mito.
Há muitos meses fui ao supermercado, deprimida por falta de Sol e calor, e a empregada perguntou, como todos fazem rotineiramente: “Are you alright?” (Está tudo bem?) e eu respondi com um tom sumido que sim – a resposta educada que se dá a todos os desconhecidos que na verdade não querem saber se estamos bem ou não – mas ela insistiu: “Are you sure?” (Tem a certeza?) e procedeu a fazer conversa comigo sobre o tempo e esse Sol que poucas vezes desponta como deve ser aqui.
Em dois anos, posso dizer que nunca fui atendida, em nenhum dos supermercados dos que fui, de forma desagradável, acreditem ou não. Talvez pareça parvoíce, certamente para muitos é, mas eu cresci numa família de comerciantes e acho que desde cedo absorvi a importância de um bom serviço, e até hoje é o que mais valorizo quando ando às compras, seja para as pequenas coisas do quotidiano, seja para as grandes – e caras.
E por falar em mitos, sabem o mito de que os franceses são mal-educados e arrogantes? Não estou tão certa que seja um mito (note-se que estou a falar apenas da minha experiência e não tenho qualquer pretensão de fazer generalizações)…
Este ano fui passar a passagem de ano a Paris, aproveitando o comboio que liga Inglaterra e França pelo Canal da Mancha, e nos deixa em duas horas num país e num mundo completamente diferente. A verdade é que eu não estava preparada para o que ia encontrar lá, e nunca pensei que fosse possível que Paris, a tão reputada cidade do amor e tal, fosse a desilusão que foi. Não porque não seja uma cidade bonita, porque isso é. E os monumentos são realmente lindos e merecem uma visita. Isto, claro, se não se importarem com coisas como esperarem três horas numa fila enquanto um segurança vos coloca na posição que quer – agarrando-vos e puxando-vos como bem quer, sem qualquer preocupação com aqueles que, como eu, não gostam de ser peças de xadrez – ou depararem-se com empregados nas bilheteiras que são rudes ao extremo – a comprovar a famosa arrogância francesa – e não têm qualquer problema em mandar-vos sair da fila – depois de lá estarem há mais de uma hora e terem sido revistados por “motivos de segurança” – e irem comprar os bilhetes semanais – que nos panfletos garantem estar disponíveis em todos os monumentos – noutro monumento qualquer.
Posso dizer-vos que, numa semana, só duas empregadas do metropolitano foram gentis e disponíveis para nós, e tenho cá para mim que não eram francesas… E há que ressaltar que eu até me ajeito no francês, por isso fiz sempre um esforço de comunicar no idioma em todas as situações!
Enfim, depois de uma semana a ouvir respostas tortas, a esperar meia hora num café para ser servida quando havia apenas uma pessoa à minha frente, e da passagem de ano mais decepcionante da minha vida – nem sequer houve fogo-de-artifício em Paris, e sinceramente, o que é uma passagem de ano sem fogo-de-artifício? - voltámos para Inglaterra cansados e com uma certeza: “Paris nunca mais!”. A menos, claro, que ganhemos uma viagem com direito a hotel cinco estrelas… acho que ai podemos repensar o assunto…
Voltámos ao céu cinzento e tempo húmido de Inglaterra, e assim que desembarcámos em Londres, como ainda nos faltava um bom bocado para o comboio para a vila onde vivemos, fomos ao supermercado da estação de comboios. Fomos atendidos com um sorriso e com um “Love” que me fez maravilhas, massajou-me a alma cansada de má-educação e comecei a sentir-me na civilização novamente. No sentido particular da palavra “civismo” que tanto aprecio. 
No dia seguinte acordei ainda com a sensação estranha de quem se sente com falta de alguma coisa, e pensei: “Acho que está na altura de ir ao supermercado comprar pão” e tenho a certeza que o meu sorriso foi absurdamente alegre, para quem ia só até ao supermercado da esquina...







terça-feira, 17 de julho de 2012

Uma Portuguesa em Inglaterra – Aranhas



 
Eu não sou uma pessoa corajosa quando se trata de bichos. E se vocês também não, abstenham-se de ler o restante deste texto.
Ponham uma aranha perto de mim e eu torno-me numa donzela a precisar de ser salva pelo seu príncipe encantado. Sempre fui assim e por isso o meu primeiro – relutante – “príncipe encantado” foi o meu pai, que até aos meus 18 anos, se levantou diligentemente a meio da noite porque eu tinha visto – ou achava que tinha visto – uma barata ou algo monstruoso do género. Não tinha medo de fantasmas nem de monstros, nem de uma série de coisas que devia temer, mas bastava um bicho pequenino para me fazer saltar e gritar.
E então vim para Inglaterra. Bem… Vamos só começar por dizer que o meu actual “príncipe encantado” tem trabalhado muito…
Este país é lindo, e está repleto de património histórico que merece ser preservado e bem… gostam de coisas velhas, para resumir a ideia geral. E as aranhas são uma espécie de instituição por aqui, ou pelo menos assim me parece. Há-as em todo o lado, nas casas, nos castelos e palácios, em salas de teatro e em cafés e restaurantes, e até nos autocarros. E, claro, há aranhas em hotéis.
Com o tempo aprendi que não vale a pena dizer a um inglês que tenho um toquezito de aracnofobia – não gosto de assumir a loucura completa a desconhecidos – porque a resposta é sempre algo como: “Mas aqui não há aranhas venenosas”. Ok, eu aceito que é uma boa noticia, se houvesse preocupava-me mais, mas ainda assim, são aranhas. Houve uma pessoa que me perguntou mesmo: “Tens medo do quê, que te salte para o pescoço e te estrangule?” e riu-se sem parar durante cinco minutos, e foi ai que eu percebi que o medo de aranhas para a maioria dos britânicos é algo muito estranho. Bem, considerando que vivem com elas lado a lado toda a vida, até os percebo. Até eu já vou ganhando alguma imunidade, e agora só me preocupo com aranhas maiores, e vou gritando menos quando encontro uma no autocarro, limitando-me a mudar de lugar discretamente.
Não se atrevam a pedir a um inglês para matar uma aranha. Primeiro, não percebem porque é que ela pode incomodar alguém, e segundo, a terem de a tirar de onde quer que ela esteja – e incomodar a coitadinha - vão libertá-la na relva lá fora. Eu aceito isso e até gosto da ideia, defensora dos direitos dos animais que sempre fui, e sinceramente, desde que não estejam perto de mim, até podem estar vivas onde quiserem, mas fui criada de um modo que sempre me fez gritar desesperadamente: “Mata, mata” e durante os primeiros meses aqui ainda cometi essa gafe e recebi muitos olhares desaprovadores.
Na primeira casa onde vivi aqui na Inglaterra havia aranhas em todo o lado, e foi o pior mês da minha vida, mas tenho tido outras situações quase caricatas por causa delas.
Nos hotéis onde temos ficado nos nossos passeios pelo país temos encontrado invariavelmente pelo menos uma. Quando fui sozinha a uma entrevista de emprego no País de Gales estava uma no meu quarto tão grande que eu tive de tomar coragem e pedir á recepção para me irem lá tirar – o meu instinto dizia matar, mas já tinha aprendido a controlar-me – o bicho, e imagino que se devem ter rido de mim durante a noite inteira. E depois, num hotel 3 estrelas do interior, encontrámos não uma, nem duas, nem sequer três, mas quatro grandalhonas que imagino que fossem da mesma família pelas similaridades, e mais uma vez tive uma noite de sono problemática, até porque fomos informados que “O quarto foi limpo esta manhã” o que claramente era mentira, ou os padrões de limpeza deixavam a desejar…
 Talvez a melhor situação, ou pelo menos aquela que o meu “príncipe encantado” mais repete, seja aquela em que fui carregar no botão do semáforo e no último instante percebi que estava uma aranha bem grande no próprio botão e dei um salto para trás tão rápido – ao qual acrescentei um grito que não deu para passar desapercebida – que empurrei as duas pessoas que estavam atrás de mim á espera que o semáforo mudasse para passarem a estrada.
Ou ainda aquela semana em que só sai pela porta das traseiras do prédio porque estava uma aranha – tão grande que o meu “príncipe encantado” não a viu – mesmo na porta da entrada.
Ou então aquela em que estava às compras, no meio de um centro comercial, e vi uma no casaco e instintivamente tirei o casaco e joguei-o para o chão, á vista de toda a gente. Importa referir que estávamos na zona dos restaurantes, e que havia um com uma grande esplanada mesmo ao nosso lado…
Enfim, as aventuras de uma aracnofóbica em Inglaterra nunca terminam…