sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ciganos



A erva cresce selvagem em ambas as margens do rio. Naquela zona parece alargar o caudal do rio e as margens separam-se mais, e o som do povo, tão ruidoso e alegre, não chega a galgar a outra margem.
Parecem parte da natureza, não são vistos nem ouvidos, e sentem-se seguros para ali ficar algum tempo. Montam as tendas com os panos envelhecidos mas ainda coloridos e distribuem as tarefas pelos homens, enquanto as mulheres se juntam na tenda maior e aquecem a comida nas grandes panelas que parecem vibrar quando são retiradas da caravana.
As crianças brincam na beira do rio, fascinadas pelos seixos e peixes que abundam naquela margem, e ajudam os anciãos a pescar.
Seguem sempre o rio, não sabem já se por hábito apenas, e quando o começaram a fazer, mas não se recordam de o fazer de outra forma. Seguem o rio e descansam nas margens, onde podem banhar-se e lavar a roupa e as louças.
Ficam alguns dias, depois partem. Geralmente vivem das feiras ambulantes onde as mulheres se dedicam à leitura das palmas das mãos e ao Tarot, e os homens gritam pregões chamativos para vender peças de artesanato e roupas feitas por eles mesmos.
Por vezes, nas terras onde têm sorte, são chamados a actuar com os seus instrumentos e animar festas com a música que, apesar de considerada profana, é apreciada por grande parte dos boémios e burgueses cansados das normas sociais.
Mas mais tarde ou mais cedo têm de partir. Geralmente acusados e perseguidos. Roubo, fraude, prostituição, bruxaria, e outras acusações que terminam sempre por obrigá-los a levantar acampamento apressadamente. São acusações verdadeiras, na maioria das vezes, mas não importa. Eles também não ficariam muito tempo, não lhes corre no sangue a vontade de ganhar raízes.