segunda-feira, 21 de maio de 2012

A mercearia dos meus avós - crónica premiada com 2º lugar na categoria nos jogos florais Clube de Futebol “Os Bonjoanenses” Faro 2012


A mercearia dos meus avós
Numa esquina da rua Antero de Quental a parede está marcada por azulejos que soletram: “Casa Carvalhinho”.  Foi nessa esquina que os meus avós criaram uma mercearia onde trabalharam incansavelmente por décadas, um local que marcou o Bom João por muito tempo.
O meu avô começava a manhã levando o seu carrinho de mão rua abaixo até à fábrica de pão, e trazendo-o de volta, carregado com o pão do dia. Nalguns desses dias deixava-me, ainda muito pequena, sentar no carrinho, rodeada pelas sacas quentes de pão e inebriada pelo cheiro inigualável de pão acabado de tirar do forno, e eu era a criança mais feliz do mundo.
Quando penso na mercearia, é quase impossível não recordar a minha avó encostada ao balcão a conversar com as freguesas que ali iam não apenas para comprar pão, mas para conversar e muitas para esquecer a solidão das suas vidas.
Eu tinha mais de dez anos quando soube o nome de baptismo da minha avó, porque até ai nunca tinha pensado nela como outra coisa senão a “Avó Gija”. Por isso, a “Dona Maria Dionísio”, que fez tanto bem a tanta gente do Bom João, que conhecia todos os fregueses como se fossem família, para mim será sempre a minha “Avó Gija”.
Era uma mulher dura que foi criada na miséria de um lugarejo do interior algarvio que vivia do que a terra provia, e durante toda a sua vida conheceu pouco mais do que a miséria. Era uma mulher seca, não dessas avós que abraçam os netos e os enchem de doces, mas era mais que isso, uma amazona. E todos os Domingos, o seu dia de descanso, fazia pelo menos dois pratos diferentes para o almoço da família. Quando terminávamos, levantava os pratos e fazia um bule de café, cujo sabor nunca mais senti sem ser pelas suas mãos, mesmo tendo tentado fazê-lo no mesmo bule e com o mesmo café.  
Recordo também que, ao invés de me dar dinheiro no Natal, como tantas avós fazem, decidiu deixar-me trabalhar na mercearia a ajudá-la, e só depois de muitos anos é que finalmente me apercebi que ela não precisava da minha ajuda, e queria na verdade ensinar-me que o dinheiro custa a ganhar, e que temos de trabalhar por ele, como ela fez por todos os parcos tostões que teve na vida. Não sei se ela se apercebeu, mas nunca me custou trabalhar ali, ao lado dela, a polir as maçãs para parecerem mais apetecíveis, ou a carregar sacos pesados até casa dos fregueses mais idosos. Ao lado dela sempre me senti mais forte, era impossível não sentir isso perto dela.
Durante toda a minha vida, deu-me poucos presentes, e por isso todos os que me deu se tornaram tão especiais que, quando chegou a altura de, como muitos jovens de hoje, ter de empacotar as minhas coisas e mudar-me para o estrangeiro, esses presentes me acompanharam. Mas mais do que isso, são as recordações e os ensinamentos dela que trago no peito em todos os momentos. É a lembrança das mãos de pele delicada que tinha, tão estranhas para uma mulher tão trabalhadora, e que acariciei enquanto via a vida esvair-se dela e me despedia. É o cheiro a café, a torta de laranja, a fatias douradas, a maçãs e a trabalho. É o som do riso dela, da voz alegre com que animava os fregueses, da máquina registadora da mercearia, da sua novela preferida e dos tachos e panelas na azáfama da cozinha. É o toque da pele delicada das suas mãos, do rosto sulcado pela idade, das agulhas de crochet com que me tentou ensinar, e do pelo cerdoso do cão que a acompanhou até ao fim. É a imagem dela encostada no balcão da mercearia, com a velha balança com pesos de ferro; ela na cozinha, a fingir que fazia a comida como o filho lhe tinha dito e a fazer como ela queria; ela no quintal a tratar das plantas que as vizinhas lhe traziam quase mortas e que ela tratava com mãos mágicas; ela sentada na mesa enquanto eu lhe tirava os ganchos do cabelo; ela à janela à nossa espera. É saber que, quando a vida me custa a carregar, tenho a imagem dela para me amparar, e caminhar adiante. 






segunda-feira, 7 de maio de 2012

Cabelo branco




Hoje descobri entre os meus cabelos longos de um castanho escuro não manchado por tintas nem permanentes como tantos outros, mais um cabelo branco. Não é o primeiro, nem deveria importar mais do que qualquer outro, mas à beira de completar três dezenas de anos, parece ressaltar-se a sua brancura por entre o castanho impoluto dos restantes. Este cabelo branco que atribuo às muitas preocupações e tristezas que me calharam na vida (como tantas outras mulheres) parece gritar-me, obrigando-me a uma reflexão supérflua e fútil do tipo das que raramente me deixo contemplar. Sinto mais pesados os vinte e muitos anos (quase trinta) que carrego e, como uma anciã, dou comigo a recordar eventos que me parecem ter ocorrido há tão pouco tempo e que na verdade distam demais.
Quando era pequenina, com uns seis ou sete aninhos ainda, posso imaginar-me claramente a caminho da escola primária e lembro-me de cada casa e cada pedra da calçada que percorria. A minha professora, a quem nunca esqueci, costumava vestir uma camisola felpuda que nos fazia sentir tão acarinhados que ela não tinha como evitar nesses dias ter sempre crianças a lutar pelo direito de se roçar na lã, o que imagino que a agradasse porque me recordo de a ver com a mesma camisola repetidas vezes ao longo dos quatro anos em que me ensinou as primeiras letras, contas, e até tentou ensinar a bordar, coisa para a qual assumo que não fui fadada, malogrado as minhas muitas tentativas ao longo dos anos. Numa dessas caminhadas para a escola lembro-me de afirmar com a voz embargada de convicção que a música “Nothing is gonna change my love for you” do Glenn Medeiros (um cantor daqueles de um sucesso apenas) seria a minha favorita para sempre, e acreditar nessa eternidade sem reservas. Verdade seja dita que, não sendo a favorita, está ainda no topo das minhas preferências, mais uma prova que o tempo não passou por mim o suficiente para justificar estes cabelos brancos que tanto me entristecem hoje.
Recordo também o prazer de acordar na manhã de Natal e encher um prato com um pedaço de cada doce aberto na véspera e sentar-me toda a manhã a ver desenhos animados e a brincar com as prendas recebidas, ainda com a dúvida a martirizar-me na mente: “porque será que o Pai Natal tem todos os anos um saco grande tão parecido àquele cá de casa?”.  Agora já não vejo desenhos animados, e sei que o saco do Pai Natal era na verdade aquele que a minha mãe, mascarada de Pai Natal, usava para nos entregar as prendas, indo logo depois pô-lo no lugar para eu não descobrir o “segredo”; mas continuo a apreciar o pequeno-almoço solitário da manhã de Natal em frente à televisão, com as prendas que me calharam, agora bem menos divertidas...
Quando a juventude chegou, deixando para trás pouco a pouco a inocência da infância, chegou o primeiro beijo, numa daquelas férias inesquecíveis de aldeia, deixando-me com uma sensação de magia quase natalícia, deixando-me desperta toda a noite, a reviver o momento na minha mente, com um sorriso largo estampado no rosto ainda tão inocente.
Abracei a adolescência com o peito escancarado, deixando-o ferir-se sem temer a morte, escrevendo com a mão sem medos, entregue a todas as emoções sem temer demais a censura nem me prender em falsas modéstia. 
Conheci a paixão intensa que arrebata o corpo e a alma, e aprisionei-me para a vida, sem saber o peso das correntes a carregar pelo resto do caminho, mas nunca lamentei.
Lutei, guerreei, protestei, gritei até perder a voz, por tudo o que acreditei, todas as causas que me encheram o peito, e também essa qualidade mantive, ainda que lhe tenha acrescentado uma dose de diplomacia que só a idade sabe ensinar...
Vi o caminho tornar-se mais estepe, a lama a dificultar a caminhada, as tempestades a ribombar por cima de mim, o vendaval a puxar-me para trás, e finquei os pés em cada passo para caminhar adiante. E fui seguindo pelo caminho, despindo partes de mim, lamentando amizades que morreram com o tempo, celebrando novos amores, despedindo-me de quem amava, enterrando com alguns partes de mim, sabendo que estava a mudar. Não como uma larva que se torna numa borboleta, nem sequer como uma borboleta que se torna uma larva. Antes como uma flor que desabrocha todos os anos, e depois se recolhe, para voltar a desabrochar diferente. Nem sempre mais bonita, nem sempre mais colorida ou mais forte, mas diferente.
E com este fio alvo (que se junta a alguns outros) o peso dos anos parece acentuar-se nos meus ombros e as reflexões mais profundas tomam-me de surpresa.
Finalmente, quando me recordo da minha avó, uma mulher nobre e amazona de cabelo branco quase tão comprido quanto o meu, ainda que já fino e quebradiço, percebo que estou a ficar cada vez mais parecida com ela e é isso que finalmente me faz sorrir e sacudir esta preocupação fútil com o raio de um cabelo branco que no fim de contas não tem importância nenhuma no caminho de uma vida. 


Sonhei que morrias




Esta noite sonhei que morrias...
Encontrei-te deitado num caixão com aroma a eternidade
As mãos repousadas no peito que já não movias
E as pálpebras cerradas a esconder o teu olhar de tempestade...

As lágrimas corriam pelo meu rosto contorcido
E a minha voz transformada num grito alucinado
Som de besta selvagem, de espírito perdido...
Abracei o teu cadáver jurando manter-te acorrentado

Prometi-te o meu coração estraçalhado no peito
O meu corpo e a minha alma abandonadas à sua sorte
Deitei-me devagar junto a ti no teu eterno leito

E beijei-te como uma menina bravia que saboreia a morte
Envolvi-te com o desespero de mulher endoidecida
E ali restei, ao teu lado, eternamente adormecida...