terça-feira, 3 de abril de 2012

Ópera


Sonhei viver no palco de uma ópera
Sofrer como Aída, amar como Violetta,
Cantar a minha angústia com a ferocidade de quem nada tempera
Ah! Amar como quem não teme a areia na ampulheta!

Sonhei cantar com o queixo erguido a minha desilusão
Gritar com o peito dorido a imensidão do meu sentimento
Encontrar o público enternecido pela minha sublime actuação
Ah! Amar como quem não teme qualquer julgamento!

Mas a voz fraquejou-me pelo caminho,
A vida um palco de uma peça de teatro ordinária
Um monólogo triste, contido, sussurrado de mansinho...

Calei o peito e não me atrevi a cantar como a cotovia
O meu murmúrio não teve lugar em qualquer ária,
Ah! Amar como quem  nunca teve qualquer ousadia!

Paris

Décadas


Décadas passadas e ele ainda marca o caminho
Anos de solidão e de espera  sem angústia nem pesar
Minutos que o relógio contou com um tiquetaque baixinho
Saudade que não cessa nem tem olvidar

Saudade da criança que se deitou no leito
Da menina que não conhecia a verdade
Da mulher com um furacão no peito
Que se descobriu naquela noite sem piedade

Pirata dos sonhos da menina que há muito morreu
Pirata negro de olhar profundo que a reconheceu
Saudade da mulher que nessa noite nasceu

Saudade que não termina e penetra a mais forte couraça
Saudade que veio de outras vidas onde o amor se viveu
Saudade que não mata nem fere, morte que não magoa, vida que se abraça.