quarta-feira, 28 de março de 2012

Vidas passadas



Vidas passadas

A minha alma deambula neste caminho agreste
Como tantas outras vezes deambulou noutras vidas
A minha alma procurou-te sem saber até que vieste
E a sede e a fome amansaram,por ti ávidas

Milhares de vidas percorri sem te encontrar
Milhares de vidas percorri apenas para te perder
Milhares de vidas roguei por ti sem me aperceber
Milhares de vidas gastas só para te procurar

E quando nos encontrámos, em cada vida passada
E me amaste por apenas um momento, ferozmente
A minha alma encontrou o seu porto e acreditou ter nele pousada

E quando nos perdemos, em cada vida passada
E nos despedimos com o olhar marejado e a alma pesada
Proferi mais uma vez a promessa de te procurar eternamente...




Paris - cemitério Pére Lachaise



Marinheiro de águas revoltas


Marinheiro de águas revoltas

Oh marinheiro de águas revoltas sem porto onde atracar
Décadas de saudade me acompanham neste caminho da vida
Instantes de ânsia sem pesar, desejo sempre a sufocar
Recordando eternamente o momento da despedida

Oh marinheiro de águas revoltas que um dia visitaste o meu porto
Beijos de sal e canela que num sopro me enfeitiçaram
Deixando a tua marca na minha alma e no meu corpo
Mãos calejadas que me percorreram e a fogo me marcaram

Oh marinheiro de águas revoltas que partiste sem lamentar
Sem um adeus, ou a promessa de um dia regressar
Esquecido de cortar a amarra que a ti me aprisionou

Oh marinheiro de águas revoltas que foste sem me libertar
E deixaste esta ânsia, este desejo insatisfeito que trago no corpo a palpitar
Pertence-te toda a minha alma, que por tantas vidas já te procurou...




domingo, 25 de março de 2012

Talvez...

    Talvez nunca ninguém entenda. Talvez com o tempo esqueçam esta ânsia no olhar. Talvez pensem que, assim como eles esquecem, ela conseguirá também esquecer. Talvez um dia, quando a virem feliz com outro, se perguntem em que momento ele saiu dela. Mas não lhe vão perguntar. Se perguntarem, ela não lhes dirá em que momento foi. Não lhes dirá porque, mesmo feliz, não houve o momento. Ela nunca deixou de o querer. Ele será, ainda que nunca admita a ninguém, ainda o único. Diferente, estranho, inesquecível. E ela, sempre que olhar o mar ou as montanhas ao longe, sempre que a virem de olhar perdido, vai estar com ele. Incapaz de o esquecer, incapaz de não o entranhar cada vez mais em si. Feliz por um momento, em que o sonho fica tão real que ela se sente, por um breve segundo mágico, novamente dele.

Ela caminha, traz a alma acorrentada à vida. Mas não traz tristeza, pelo menos não a tristeza angustiante que pensam. Ela traz, nessa ânsia insatisfeita, nesse querer sem ter, sorrisos sonhadores, lembranças mágicas, e o cheiro dele. E é feliz assim, mesmo que ninguém jamais lhe entenda o espírito.

Se ele existiu ela não sabe. Se foi verdade cada instante que traz consigo, não tem certeza. Mas lembra-se do que sentiu, e basta-lhe.
Talvez, mais do que falta dele, tenha falta de quem foi com ele. Ela sonha em ser real, sentir-se viva e sincera. Ela precisa lembrar-se do que é descer do palco.

Ela vive. Não espera apenas. Sabe que tem de viver porque o passado não volta e só tem as memórias. E é feliz, pelo menos acredita que o vai ser um dia. Mesmo sem ele. Porque ela, mesmo que nunca mais o veja, nunca o perde. Ela é ele. Ela é um beijo demorado, uma carícia prolongada e um prazer incomparável. Ela é o cheiro dele, as palavras sorvidas sequiosamente. Ela é a certeza de um milagre.
Ele… talvez ela nunca saiba quem ele é.

Viveu-se um instante que parou o tempo, mas que correu demais. Ela traz remorsos também, mas sabe que são infundados. Ela sonha que teve coragem e ficou. Ela sonha que teve coragem e lhe pediu. E tenta esquecer, com os olhos perdidos no horizonte, que a coragem faltou. Tenta esquecer que não soube ficar, nem entendeu.
Quem é ele? Para ela, por mais que o tempo tenha passado, ele é o cheiro a canela. È o cheiro a mar. O cheiro a homem. Ele é o cheiro que mais nenhum homem tem.
Ele é a voz angustiada, a bondade desmedida, a maldade temida. Ele é assustador, mas ela não sente medo. Ele é o diabo, e ela ama-o. De uma forma tão louca que nem usa a palavra amor. Teriam de inventar uma nova palavra para descrever esta prisão que ela tanto acarinha.

Entendem? Não, não podem entender… Ou talvez possam… Talvez o milagre aconteça a todos um dia. Talvez não…

Não lhe consegue sentir os lábios, mas lembra-se da barba a roçar-lhe o corpo. E ela, que nunca gostou desse toque, delicia-se quando recorda o dessa noite.
Não se lembra de todas as palavras, mas não esquece a vontade de lhe dizer que lhe pertencia.
Não sabe quanto tempo ficaram em silêncio, com a respiração entrecortada pelo desejo, mas sabe que foi pouco.
Não se lembra dos sons lá fora, mas a Lua batia na janela, mágica.
Não se lembra o que lhe disse, mas sabe que foi verdadeira, como nunca antes e nunca depois.
Não sabe o que ele sentiu, mas sabe que ele ficou entranhado na sua pele e, de tempos em tempos, quando a lembrança é mais forte, sente-lhe o cheiro no corpo ainda.

Sabe que ele não volta, mas não quer dar-se a mais ninguém.
Tentou, quis entregar-se, mas ele aparecia nela e não podia. Ela é dele, mesmo que ele nunca mais a queira.

Dizem que é sonho. Ilusão demais.
Não a conhecem. Não sabem a alegria do corpo dele no dela.

Ela não precisa que lhe oiçam as palavras e compreendam o olhar.
Só quer os instantes com ele marcados a ferro em si.




sexta-feira, 16 de março de 2012

Inverno


Entranha-se na pele e na alma este frio extremo
O ar glacial que sopra sem descansar nem amansar
O vendaval que não posso negar que temo
O gelo que se incrusta nos ossos sem se apiedar

Encharca-me a pele e a alma esta chuva incessante
A água que se agita num feroz remoinho
Como lágrimas que parecem brotar do meu peito suplicante
O manto de água que cobre toda a terra no seu caminho

O Sol que nunca vem para me aquecer os ossos cansados
Que nunca escorre a água do meu longo cabelo
Que nunca me liberta dos meus mantos pesados…

Cubro a alma de mantos e véus e rezo pelo degelo
Vergo-me à violência da chuva e sonho com um leito seco que me acalente
Porque esta alma tão cansada ainda é a de uma sobrevivente!



Uns e outros

Para uns o fado é a tristeza
Arrastam consigo o sofrimento e a saudade
Outros caminham pela Vida com leveza
E despedem-se sem lágrimas nem contrariedade

Uns carregam no peito as lágrimas de uma vida
E trazem o olhar húmido de melancolia
Outros trazem no peito uma alegria incontida
E no olhar um sorriso sem hipocrisia

Uns passam pelos dias sem nada vislumbrar
Outros abraçam a Vida com alegria
Uns tornam-se cegos pela cortina de lágrimas no olhar

Outros caminham como quem dança
Mas uns e outros são irmãos no dia da morte
Cadáveres apenas, qualquer que tenha sido a sua sorte.

Stonehenge

Menina, Mulher, Mãe, Companheira

Menina despojada da sua meninice cedo demais,
Mulher desnudada da sua feminilidade
Mãe sem quem embalar com suavidade
 Companheira forçada a caminhar só pelo cais

Criança que vislumbra os barcos e sonha neles embarcar
Mulher que fita os barcos e anseia pelo seu marinheiro
Mãe que, para lá dos barcos, olha o horizonte vazio sem lastimar  
Companheira que se abraça para escapar da solidão e encontra no mar o seu cheiro

Menina que se ajoelha à beira-mar e reza com fervor
Menina crente, com o peito aberto e a alma selvagem
Mulher que é corpo e essência, paixão e entrega sem pudor

Mulher ardente que se entrega ao mar sem medo do vendaval
Mãe que embala o cadáver que encontra na margem
Companheira que silencia no peito a ânsia intemporal…  



domingo, 4 de março de 2012

Jasmim


Aquela casa cheirava a jasmim. A escuridão do interior não a assustou tanto quanto previa, mas rapidamente abriu as porteiras das janelas. Exalava aquela magia que só as casas antigas têm. Parecia ouvir-lhe os murmúrios, talvez histórias contadas em surdina, instantes que aquelas paredes tinham saboreado ao longo dos tempos, ou apenas a brisa que gemia pela madeira velha.
Depois de abrir a porta pesada, empurrara para dentro a sua cadeira de baloiço, onde costumava ler e recordar. Colocou-a perto da lareira, logo em frente à porta, e andou pela casa a abrir as janelas, dando-lhe a alegria que faltava ali, deixando passar pelas suas pernas o cão, um rafeiro farrusco que se enroscava nos seus pés à noite, e que farejava ansioso o novo lugar.
A casa era pequena, parecia-lhe certo só fazer caber ali a si e às memórias que trazia. A lareira, encrostada na parede-mãe, que se erguia por toda a altura, era a alma da casa, recebia quem entrava com aquele encantamento que as chamas a crepitar sempre provocam. A mulher que lhe vendera a casa teimara em que ela devia mudar aquilo, usar uma daquelas que se acendem com um simples botão. Mas ela preferia assim, a lenha a crepitar. 
À direita, três degraus levavam a um pequeno corredor, uma saleta acanhada para receber as poucas visitas que passassem por ali. Seguindo por aí chegou, lá bem ao fundo ao quarto. Deixou em cima da cama a mala que trazia ao ombro, abriu a janela e saiu até ao jardim, pensando em que plantas cultivar naquela terra, para lhe alegrarem a vista todas as manhãs. Depois voltou a entrar e regressou pelo pequeno corredor. Antes de chegar à saleta encontrou a outra porta, a da divisão cheia de azulejos, com a banheira limpa com que estivera a sonhar toda a manhã. Na ponta da divisão uma outra porta levava a mais uma saleta, como quase tudo, sem paredes que só diminuiriam a casa, já de si pequena. Aí deixaria o aparelho de som, e deitar-se-ia no sofá embutido a olhar pela janelinha estreita que deitava para os montes ao longe.
      Voltou a sair, para buscar ao carro tudo aquilo que possuía na vida, e que trazia para aquele novo lar.

Quando pensara naquela casa, nos anos que tinham passado desde a última vez em que lá tinha estado, pensou que teria medo de lá passar as noites sem ele, completamente sozinha no meio do mato. Mas, ali, em frente à lareira crepitante, sentada calmamente na sua cadeira baloiçante, não sentia medo da solidão. Depois de tanto tempo de solidão encrostada na alma, a solidão do corpo já não lhe fazia estranheza.
      E, para mais, merecia estar ali, sozinha. Merecia a felicidade de ter encontrado alguma paz e calma na sua vida, e merecia também o frio nos pés e no peito.
      Cometera uma loucura que lhe custara toda uma vida planeada, mas não conseguia lamentar-se. Afinal, se o tinha feito, o caminho que ia a percorrer não era o melhor...
Mas e se a sua mente não lhe tivesse pregado aquela partida, logo ali, naquele dia? Teria continuado, teria casado com aquele homem que a esperava vestido com o fato completo que lhe asfixiava o corpo habituado a simples camisas e calças de ganga?
Costumava dizer à mãe que, se algum dia ela casasse sem cerimónia, sem a cerimónia que sonhava, aquela mistura de religiões e costumes, podia ter a certeza que não amava de verdade. Mas não se tinham lembrado disso, nenhuma das duas. Até àquele dia, quando ela, a poucos metros do casamento, o viu, e não soube mentir mais, nem a si mesma.
Ele, esse homem que lhe tinha oferecido um futuro, tinha tido esperança de nunca ter de se aperceber do carinho calmo demais dela. Contentava-se com isso, nunca conhecera mais, e achava que, para lá das loucuras que a mente romântica daquela mulher calava, não havia, de verdade, sentimentos tão arrebatadores. Mas, quando a viu correr dali não soube odiar, percebeu que ele é que a deixara ir longe demais. Só não entendeu o que é que a tinha despertado daquele torpor.
O ruído da cadeira a baloiçar, e das chamas cintilantes da lareira, depois de alguns minutos a recordá-lo, embalaram-lhe o sono, naquela primeira noite de volta àquela casa.

Na manhã seguinte um raio de sol despertou-a daquele sono incómodo. Esticando as costas, procurando curar as dores de uma noite passada na cadeira, cheirou-lhe mais forte o jasmim à volta da casa. Abriu as janelas, para que aquele cheiro se impregnasse melhor nas paredes, e foi tomar um banho frio.
Depois de tomar o pequeno-almoço na rústica cozinha cheia de tachos e panelas, saiu, em direcção ao cimo da encosta, onde estava a outra casa, a que percorrera mais vezes, mas que não a conhecia de verdade. Era uma casa maior, que os estrangeiros queriam para os Verões de abundância, para nadarem na piscina todo o dia e se refastelarem na mesa pesada de tábua grossa.
Subiu, com o cão ao pé, pelo trilho de pedras, árvores e muros construídos há muito tempo pelos moradores da zona, quando os estrangeiros ainda se contentavam com os arredores das suas próprias cidades.  
A casa, baixinha como de costume por ali, era comprida que bastasse, e os acrescentos feitos à casa por especialistas em misturar tudo com harmonia, só a ela causavam impressão, porque estivera ali antes.
Não podia entrar, mas não se importou, não queria ver nada ali dentro. As suas recordações estavam na outra casa, aquela apenas a acolhera enquanto o milagre não acontecia. Aquela apenas vira o cruzar de duas vidas que encontrariam noutro sítio um ninho melhor. Mas fora ali, pensou enquanto se sentava à beira da piscina, que o vira chegar, rindo para o que vinha atrás dele. Rindo aquele riso estranho que não é mentira, mas também não é verdade. E entrou, com os outros, pela cozinha. Ela ficou mergulhada, a ouvi-lo falar, sem perceber que já ouvira aquela voz e vira aquele rosto há muito tempo, noutra vida qualquer.
      E, quando entrou, encharcada, a enxugar o cabelo, e os seus olhos se cruzaram, algo lhe aqueceu a alma. E o sorriso, breve, sem intimidade, não a afastou, porque lhe via, ao fundo, escondido por entre as pregas dos seus lábios, uma emoção compartilhada em silêncio.
      E quando, nessa noite, todo o grupo se juntou à beira da lareira, com garrafas e cigarros, e um olhar mais longo cintilou na meia-luz das chamas, algo mudou.

      Levantou-se daquele banco incrustado na pedra e abaixou-se para acariciar o cão, que a olhava expectante, parecendo ouvir as palavras que lhe passavam pela mente. Deu a volta à casa, e espreitou pelos vidros. Ali estava a lareira, na sala onde eles conversaram pela noite adentro, enquanto os outros dormiam ali mesmo pelo chão. Mas nunca se tinham aproximado, não parecia necessário. Nunca, nem mesmo quando ele a apertara de encontro ao corpo, ela se sentiu mais próxima dele, do que quando o ouviu falar. O álcool parecia suavizar-lhe a voz, mas ela lembrava-se de ter pensado “fera ferida”.
      Ele bebia, aliás, nesses dias, não se lembrava de o ter visto muito tempo sem um copo na mão, mas era desses seres estranhos que, mesmo de garrafa na mão, não ficam descontrolados, nem dizem parvoíces. Ele parecia estar sempre controlado por uma lei maior que o mundo. Em tudo. O olhar podia seguir-lhe os passos, mas a voz era firme e normal, e nunca se deixava levar. Era ele, nunca cedia, até que se encontraram sozinhos na casa abaixo na colina.

      Por toda a estadia ali, naquele pequeno paraíso, se mantiveram afastados. Ela sentia medo, não saberia explicar então porquê, e ele... Bom, ele era ele, o eterno racional.
      Passavam as tardes à beira da piscina, todos juntos, mas o tempo piorara até se ver as nuvens de chuva ao longe, e o que faziam era apenas conversar, enrolados nas mantas. Faltava vontade de ficar dentro de casa, ainda que o frio lhes gelasse os ossos e, quando se cansavam de ali estar, desciam trilho abaixo até à tasca, uma tavernazinha perdida naquele nada, onde aqueciam a alma com cafés, e compravam o que lhes faltava na casa.
      Ele andava com eles, mas o olhar era diferente. Parecia que não pertencia ali, nem mesmo a este mundo, era mais, destoava de todos. Quando, mais tarde, uma amiga pediu que o descrevesse, a única forma de explicar que lhe ocorreu, foi a de o chamar de Fidel Castro em jovem. E ele era assim, não nos ideais e tudo isso, mas no respeito, na imponência que espalhava por onde quer que passasse. E as suas palavras, mesmo quando eram simples, deixavam escapar um espírito forte demais. Chegavam a assustá-la, mas o medo era diferente do que tinha das baratas ou dos ladrões, era um medo que lhe acariciava o estômago, suave, mas intenso.
     
      Na noite seguinte adormeceram novamente na sala, rodeados de cinzeiros, maços de tabaco e garrafas vazias. O cheiro era forte, cheirava a erva molhada, a fogo e a gente. Ela nunca conseguia adormecer quando havia muita gente. Era mania, não gostava de dormir assim, mas também não encontrava forças para se levantar e ir para o quarto. E ficou, olhando pela janela, a escuridão da noite aclarar pouco a pouco. Depois, um pouco antes de o amanhecer, saiu para o pátio, e sentou-se na mesa, a olhar o céu. Dali viu, por entre a folhagem, a chaminé da outra casinha. Na tarde anterior tinham lá ido, mas apetecia-lhe estar sozinha. Entrou, roubou as chaves, sem barulho, pegou no maço de tabaco, e saiu.
      Desceu o caminho sem medo, inspirando o ar fresco do amanhecer em terras puras, e entrou na casa. Abriu as janelas para que aquele frio de paz entrasse e então cheirou-lhe aquele jasmim que jamais conseguiria esquecer.
      Sentou-se nos degraus da salinha de música e olhou pela estreita janela, por muito tempo, procurando curar as feridas, feridas pouco preciosas, apenas feridas de criança.
      E, passado muito tempo, ele chegou.

Entrou como se nada fosse. Nada era, para ele.
Vinha apenas saber se estava bem e chamá-la para o pequeno-almoço, àquela hora tardia. Ela sorriu-lhe e deixou-se ficar, incapaz de deixar de fitar aquele céu, apertado na janelinha estreita, aquelas montanhas ao longe, os cumes verdes e encostas escarpadas numa escultura tão perfeita que lhe parecia ver ali as mãos Dele.
Ele, talvez intrigado pela mudez, ou apenas seduzido pelo canto das montanhas-sereias, sentou-se também, mas falou, quebrando um pouco do encanto daquelas montanhas, tecendo talvez um encanto maior.

Mariana, com o cão a correr à sua volta, já no trilho de volta à casa, tentou lembrar-se que palavras ele tinha dito, que história lhe contara. Não sabia ao certo, recordava palavras soltas, que lhe tinham soado mais bonitas naqueles lábios, frases mais profundas, declarações mais intimas. Do mais, da beleza na construção do texto, da coerência ou até mesmo do comprimento do discurso, não se lembrava. Não lhe tinha interessado.
A certo momento quisera aconchegá-lo no colo, mas o olhar de homem valente refreava-lhe o desejo. Outras palavras, dirigidas a ela em tom suave - um tom tão vulgar e nele tão raro e precioso - acordaram-lhe a vontade de entregar a alma àquele homem estranho, para que as pequenas feridas de menina que sonha demais sarassem. Mas a razão - essa maldita que tanto lhe roubara na Vida - deixara-a imóvel.
O que ele sentira, as vontades, os desejos, nunca soubera bem, nem naquele momento nem quando o tivera consigo, mas podia imaginar e isso bastava-lhe, não fosse aquele medo miudinho.
Ouviram, lá da casa grande, a voz dos amigos e souberam que era hora de ir. Levantaram-se e, naquele esconde-esconde, quase não se beijaram, mas a sorte - ou o azar? - Fizera com que os olhares se encontrassem e a verdade mostrou-se no anseio lançado num suspiro. Foi beijo pequenino, que logo as vozes lá de cima os interrompiam, mas aumentou-lhes a sede.

Mariana cozinhava bem. Bom, pelo menos fazia alguns pratos que não a deixavam mal. E bolos, fazia muitos bolos e biscoitos. Gostava de os fazer mais ainda do que de os comer mas, ali, sozinha, não parecia sensato fazer bolo todos os dias e deixá-los a apodrecer. Então, resignada, fazia o jantar, pouca coisa para uma boca solitária.
Cozinhar pode ser terapia, e descansa-a, há muito tempo ela descobriu que se entende melhor com massa nas mãos. E, pensando “amanhã pego no carro e vou levar estes biscoitos a alguém”, acaba por ceder a amassar a massa, a fazer biscoitos em forma de estrela e bolos com sabor a canela.
E pensa, pensa muito, naquela cozinha. Pensa em como ele sabia bem, melhor do que uma dedada de bolo por cozer. Pensa no que fez abandonando tudo para ficar sozinha. Pensa na última vez que o viu a sério, e o tocou, não aquela miragem do último dia. Mas decide-se “ não me arrependo”, mesmo que há dias não veja gente e não oiça mais do que o chilrear dos pássaros à volta da casa, o ladrar do cão e as músicas da rádio.

Parece-lhe que já não conduz há tanto tempo que precisa apresentar-se de novo àquela máquina que descansa há dias debaixo daquela árvore grande, para lá do carreiro. Senta-se no banco, remexe-se, para que ele se habitue aos seus novos contornos - sim, porque uma alma nova também molda o corpo -, diz-lhe que ela, com a saia de cigana colorida, é a mesma de sempre, a menina da roupa escura e apagada, acaricia o tablier como se faz aos cães –”Nikita, anda com a menina! Não ficas aqui sozinho ou ainda te perdes, não é? Nem conheces bem os matos... anda já, salta!” -, diz para o cão, e roda a chave.
Passou por aquela taberna à vinda, conhece-a bem, foi lá muitas vezes naquele fim-de-semana. Mas não vai parar, está ansiosa de chegar a casa de alguém, ver os pais, os avós, alguém com quem falar, que a solidão precisa de ser quebrada.
     
      Pouco tempo lhe basta para entender o valor da sua casinha no meio do nada. Não que lhe aborreça as histórias continuas de gente que ela nem conhece, nem as insinuações acerca do noivo, mas a calma nunca foi o seu forte. Prefere escapar antes de explodir e magoar alguém. Assim, dizendo que ainda tem de ir ver os pais, deixa a avó, até que o efeito lhe passe e as saudades lhe provem que ainda é capaz de lá voltar.
      A confusão da cidade, aquela cidade que a viu crescer e a quem ela também viu crescer, incomoda-a, mais do que antes. Sempre gostara dali, era cidade, mas pequena, calma até, mas os anos acrescentaram-lhe centros comerciais, lojas, ruas, parques, e já nem reconhece os caminhos de sempre. A sua rua, antes tão vazia, pronta para receber os meninos a cada aberta das chuvas no Inverno e a todo o momento no Verão, está atulhada de carros e as poucas crianças que por ali andam passam apertadas por entre os carros para buscar as bolas fugidias.
      Ela e os amigos tinham tido toda aquela rua nas mãos, era deles, nem mesmo os outros miúdos iam para ali. Tinham sido a última geração de crianças a ter naquela rua as memórias de infância enterradas no alcatrão...

Parecia que não se tinham tocado. Ela, com o receio sempre dentro de si, calou as vontades, as palavras e acções por dizer e ele, impassível como sempre, calado ficou.
Comeram com os outros, saíram à tarde para a taberna, beberam até ao anoitecer e voltaram para casa com mais garrafas por despejar. Ali estavam bem, livres, ao menos dos outros, porque de si mesmo ninguém consegue libertar-se.
Ela queria dizer-lhe que o queria, que estava faminta dele, mas o carinho dele calava-a. Sentia que, se insistisse, as respostas dele seriam feridas.
Ouviram música, falaram, jogaram cartas, beberam, comeram, fumaram maços sem fim de tabaco e não se falaram. Ela acabrunhada porque sabia que no olhar estava a ânsia estampada, ele calmo e indiferente como sempre.
Os corpos foram caindo, cedendo um a um ao cansaço, ficando por ali, à força da preguiça demais para irem para os quartos.
Nunca conseguiria esquecer a intensidade daquele olhar, a ternura da voz, o momento perfeito, o único de uma vida. Os corpos desmaiados, ele e ela despertos, ela mais viva que nunca, o peito acelerado, a certeza de viver um milagre, a vontade demente de o chamar a si. Nos olhos dele sabia a calma, os passos vagarosos que só ele sabia dar, e acalmou-se. Ouviu-lhe as palavras, respondeu-lhe ao que podia, e calou o grito. Mas então, porque ele lhe viu no olhar, ou porque as amarras da Razão também lhe libertaram o corpo, aproximou-se.

Nunca imaginara poder ser assim, encontrar a melodia sagrada no roçar dos corpos.
Ele, aproximando-se devagarinho, recortado na luz da lareira ainda acesa, estendeu-lhe a mão e tocou-lhe no rosto com uma ternura tão intensa e pura que ela esqueceu a vontade de beijá-lo, de tê-lo em si, e sugou apenas o carinho daquela carícia.
O rosto dele, escuro, estranho, o olhar impenetrável, suavizou um pouco e deixou-a entrar um pouquinho. Depois afastou-se, mas não lhe deixou medo, apenas a certeza de que ia segui-lo. Ele entrou no corredor e ela levantou-se. Queria desesperadamente sentir a emoção de sempre, a vulgar, a de quando se entregava em busca do eterno nos sítios errados.
Mas ele, sem olhá-la, sem lhe deixar palavras ou promessas, era diferente. E ela sabia. Quis ficar, quebrar o encanto, ele era o abismo, mas não foi capaz. Aquele homem, magro, de barba negra, olhos escuros como grutas e sorriso estranho, agonizante; chamava-a, sem palavras, e ela seguia-o, como se ficar ali, por entre os corpos desmaiados, a pudesse matar.
Não pensou no cabelo desgrenhado, no rosto cansado, na roupa com cheiro a bebida. Não pensou que não devia. Esqueceu quem era e foi. Pela primeira, por uma única vez, foi verdadeira, primitiva, sinceramente ela.

Pensou que ele a levava para o quarto, mas saíram, desceram o carreiro e foram para a outra casa, a pequenina. Os sons da noite no campo são estranhos, mas não pareceram importar-lhe. Estava frio, um frio insuportável, mas ela não se queixou. Trazia uma manta enrolada no corpo e a mão dele na dela. Bastava.
Na salinha de música, como ela sempre lhe chamou, havia um sofá embutido. Deitaram-se aí, de frente para a janelinha com as montanhas meio escondidas na escuridão e ficaram, até de manhã, até as terras escarpadas aparecerem bem.

Houve quem lhe dissesse que havia de esquecer, que tinha sido uma noite apenas, nada de mais, apenas a primeira. E ela acreditou, ou pelo menos ganhou esperança. Buscou noutros, mas o cheiro dele, aquele cheiro de homem, nunca voltou.
Um dia, cansada, aceitou outro homem e convenceu-se que podia viver sufocando aquela paixão no peito. No dia do casamento a mente pregou-lhe uma partida e uma amarra estranha que a prendia, soltou-se, e foi para ali.
Estava cansada de fingir que não lhe importava, que tinha esquecido a ternura estranha dele, o olhar cansado, o sabor, o cheiro... Largou o mundo e foi para ali. Sozinha, para se salvar.

      Nunca soube o que foi para ele aquela noite. Ele não era homem a quem se perguntasse e aquele olhar sabia ser impenetrável como nenhum outro. Mas não lhe fazia mal não saber, lembrava-se do que tinha sentido e não tinha dúvidas.
      Tinha as memórias e aquela casa, o cheiro a jasmim que o entranhava mais forte em si, e aquela solidão, aquela solidão que não doía.