segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mundo ao contrário






Vivo num mundo ao contrário e já não sei qual é o topo e o fundo.

Vivo num mundo onde os políticos do meu país dizem de boca cheia, sem vergonha, que os seus cidadãos devem ir para o estrangeiro, como se dessem o caso por encerrado e o barco já tão perto de afundar que nada mais há a fazer senão correr para os barcos salva-vidas.

No mundo ao contrário onde vivo é legitimo gastar milhões em fogo-de-artifício para comemorar a passagem de ano (e vejam bem que eu adoro fogo-de-artifício) mas os pobres têm de apertar o cinto um bocado mais porque o país está em crise. No mundo ao contrário onde vivo a solidariedade social é tão parca que há idosos a dormir nas ruas, e pessoas a morrer em casa sem serem descobertas durante semanas.

Neste mundo ao contrário é legitimo gastar dinheiro em touradas (o que afinal anima mais as pessoas do que uma boa selvajaria?) quando há milhares de cães abandonados por todo o país a morrer à fome, atropelados nas estradas (pensemos pelo menos nos acidentes que provocam!), e atirados ao lixo como se fossem coisas (que é o que são segundo a Lei).

Neste mundo ao contrário os professores, criadores da geração de amanhã, aqueles que têm o infinito poder de encher a mente dos nossos filhos de conhecimentos, e ensiná-los a pensar, são tratados como profissionais de somenos importância e, novamente, aconselhados a ir para o estrangeiro assim que possam. E a geração de amanhã, com quem aprende? O que aprende? Ou também tem de ir para o estrangeiro?

O mundo ao contrário onde vivo tem políticos que há anos não vêem o interior do metro ou de um autocarro, porque andam de carro para todo o lado e, claro está, o povo paga. Até porque a gasolina está barata, se bem sabem…!

Neste mundo ao contrário dizem-nos para mudar a nossa forma de escrever e esquecer a beleza singular da língua portuguesa, porque o que importa é uniformizar tudo e fazer boas relações de negócios. Quem sabe não devêssemos começar a falar todos chinês? Será o próximo passo, provavelmente.

Neste mundo ao contrário cortam-se os subsídios para todos, menos para os que ganham mais, porque afinal de contas não queremos que gente de bolso cheio se mude para outro país. Os cidadãos comuns, com parcas poupanças, eles que vão lá para o Brasil ou para a Alemanha, mesmo que tenham estudado em Portugal e sonhassem em fazer crescer o seu país. Esses podem ir que não fazem falta, principalmente os jovens, afinal de contas, quem é que quer uma sociedade jovem? Mas não esqueçamos de, de quando em quando, só para mostrar alguma preocupação com o envelhecimento populacional, apelar ao aumento da natalidade!? Que sentido é que isto tem, num mundo ao contrário onde ser mãe tem de ser um plano para amanhã “quando houver dinheiro” e, para haver dinheiro, temos de ir para o estrangeiro?

Neste mundo ao contrário o 25 de Abril é lembrado apenas como um motivo para descansar um dia (esperemos que seja à 2ª ou 6ª feira) com músicas revolucionárias que sabem bem cantar e ouvir, não o símbolo de uma revolução que marcou o nosso povo. Mas a verdade é que não somos povo de revolta, e é com isso que os políticos contam: “vamos apertar-lhes o cinto até morrerem à fome (ou irem para o estrangeiro) que eles não se revoltam”. Já estava na hora de lhes mostrarmos que podemos ser um povo pacífico, mas não somos um povo de “parvos” e sabemos gritar alto o nosso descontentamento.

Neste mundo ao contrário os hospitais têm cada vez menos profissionais e um seguro de saúde é já um bem essencial, porque o cuidado que os hospitais públicos nos fornecem é equivalente à qualidade e quantidade dos profissionais que são autorizados a contratar.

Neste mundo ao contrário fecham os mais importantes estabelecimentos do país, as ruas vão ficando vazias, as lojas entaipadas, os preços dos bilhetes de avião aumentam (com o aumento do fluxo), as casas vão ficando por alugar, os supermercados cada vez mais cheios de comida que ninguém leva, até que sejamos um país fantasma. Um triste fado para a nação que foi dona de metade do mundo…

E a palavra saudade (que espero que não retirem da língua portuguesa com o tal novo acordo ortográfico ou quaisquer próximos movimentos de conformidade que queiram fazer) vai ser a mais dita por todos os portugueses espalhados pelo mundo. Os portugueses que queriam ficar na sua terra, na sua Lisboa, no seu Porto, na sua aldeia transmontana, na sua vila piscatória, no Algarve, ou nas ilhas; mas que o governo mandou embora. Os portugueses que queriam aprender, ir para a Universidade, e ser parte do progresso de Portugal; mas que tiveram de partir para sobreviver. Os que têm formação a mais, experiência a mais, para encontrar um salário digno em Portugal. E os professores, que sonhavam ensinar às crianças portuguesas o Hino nacional, e a nossa história, e que partem. Os médicos e enfermeiros que encontram reconhecimento noutro lado. Os jovens que destituem o país da sua alegria e vida, dos seus sonhos e ideais. As famílias que se despedem com lágrimas nos olhos, os “adeus” que custam a nascer. Os idosos que ficam para trás porque não cabem na mala destes jovens que têm de lutar por si, pelo futuro.

Neste mundo ao contrário, a palavra saudade tem uma nova conotação: saudade do meu país, dos campos verdes e praias infinitas; saudade da minha família que se visita de ano a ano; saudade da crença num futuro melhor; saudade dos sonhos de criar filhos portugueses e ensinar-lhes a dizer “Mãe”; saudades de sentir orgulho de ser português; saudades do pão e do azeite português; saudades de ouvir falar a nossa língua; saudade de ser Português.


Brontë

Brontë

  

Em 1826 já só viviam três irmãs na casa da paróquia onde o pai, Patrick, era reverendo da igreja de Inglaterra. Outras duas irmãs tinham morrido no ano anterior de tuberculose, com pouco mais de um mês de diferença. De facto, a perda e a morte tinham sido e seriam sempre os temas a circundar a família.

A mãe, de nome Maria, morreu em 1821, poucos meses depois de se mudarem para a casa que se tornaria o centro da história da família e é hoje um museu dedicado à história desta família onde o talento parecia abundar quase tanto quanto a tragédia.

Legenda: Brontë Parsonage Museum)


Quando Maria e Elizabeth (utilizarei as versões inglesas dos nomes porque pessoalmente não acredito na tradução de nomes), as filhas mais velhas, morreram, o Reverendo decidiu retirar da escola cujas péssimas condições propiciaram a sua morte as duas outras filhas que lá estudavam: Charlotte e Emily. Anne, a mais nova, era pequena demais para sair de casa. Patrick Branwell, o único rapaz, também estava em casa ainda.

Durante anos a vida desta família foi considerada por muitos como estranha, sendo o Reverendo um homem crente na educação mesmo para as filhas e tendo dado a estas todas as oportunidades de estudo que estavam ao seu alcance. O lugar de mãe foi ocupado por uma tia descontente com as suas obrigações, mas que lhes ensinou muitos dos ofícios relevantes para as mulheres daquele tempo.

Diz-se no entanto que as crianças “não sabiam brincar” e que eram poucas vezes convidados para festas em casa de vizinhos e, quando eram, mostravam-se constrangidos. Uma família a quem a morte e a dor aproximou de tal modo que o mundo lá fora parecia por vezes estrangeiro demais, talvez.

Mas eles não sabiam que muita dor e perdas seriam ainda sentidas, e que a sua família seria um marco para a história da literatura mundial e em particular da literatura inglesa. A casa, que é hoje um museu, assistiu a mais mortes, a doença, medo, rejeição e até ao alcoolismo e espiral destrutiva de Branwell. E o reverendo assistiu a tudo, único sobrevivente da família após 1855, aquando da morte de Charlotte. Viria a morrer apenas em 1861, tendo sido acompanhado pelo genro com quem, embora nem sempre com a mesma vontade (sendo o genro mais cioso da privacidade de Charlotte e da família), encetou esforços para o desenvolvimento da biografia de Charlotte Brontë, e procurou o reconhecimento literário merecido das irmãs.   

Legenda: Reverendo Patrick Brontë
  

Patrick Branwell  

Legenda: Branwell Brontë



Nascido a 26 de Junho de 1817, Branwell, como era chamado, foi provavelmente marcado pela perda da mãe e pela adoração que a tia que ocupou a posição materna tinha por ele, como único rapaz da família.

Em pequeno o Reverendo ofereceu-lhe um conjunto de doze soldadinhos de chumbo que vieram a ser o prelúdio de muitas histórias desenvolvidas pelos quatro irmãos com mundos de fantasia, tendo inicialmente sido criada “Glasstown”, uma cidade fundada pelos “Doze” (soldadinhos). Algo que parece um momento tão banal para uma criança, ainda que divertido, deu origem a anos de escrita prolifica incluindo poemas, prosas e mesmo revistas e novelas sobre os eventos do mundo de fantasia. Em parte devido à falta de papel e ao tamanho do mundo de fantasia sobre o qual escreviam, a grande maioria desta escrita foi feita em tamanho tão reduzido que se tornava quase impossível de decifrar e alguns exemplos podem ser agora apreciados no museu e surpreendem pelo detalhe, cuidado e atenção dada pelas crianças.

Em 1834 Charlotte e Branwell criam um novo mundo imaginário denominado Angria, e Emily e Anne criam Gondal; e surgem novos poemas, revistas, novelas e desenhos.

Branwell aprecia tanto a pintura e o desenho que em 1835 começa a ter aulas com um pintor chamado William Robinson, preparando-se para entrar na Royal Academy, o que nunca vem a acontecer. De facto, embora tenha tentado ser um artista quer pela escrita quer pela pintura, Branwell nunca foi bem sucedido e depois de passar por alguns empregos diversos é contratado como tutor na mesma casa onde a irmã Anne está a trabalhar, mas apaixona-se perdidamente pela senhora da casa. Sendo esta casada, Branwell é despedido e volta para casa. Quando em 1846 a senhora enviúva, Branwell acredita que poderá finalmente viver o seu amor, mas é contradito pela própria viúva que o rejeita, o que incita uma espiral de destruição marcada pelo alcoolismo, que o acompanhou até à sua morte em 1848.  

Embora nunca consagrado como sempre desejou, Branwell tem diversas pinturas e desenhos de interesse em exposição no museu, incluindo um quadro famoso no qual ele se pintou juntamente com as irmãs, apenas para mais tarde se retirar da imagem, deixando no quadro uma sombra dele mesmo. Encontra-se também nos seus feitos poesia de alta qualidade, apaixonada e desesperada, como o próprio Branwell.



Anne Brontë  

Legenda: Anne Brontë


O leitor atento conseguirá desde logo discernir a minha quase antipatia por Anne. Não se trata de uma questão pessoal, até porque Anne é sempre retratada como uma rapariga piedosa e a especialmente amiga de Emily, pela qual tenho forte predilecção. Não, a minha quase antipatia relativamente a Anne é similar aquela que teria quando perante três quadros pendurados numa mesma parede, um destoasse de forma berrante. Visto que as irmãs Brontë são frequentemente referidas conjuntamente, como se a qualidade das três fosse equiparável, vejo Anne como o quadro que destoa numa parede de pinturas de alta qualidade. Sou incapaz de ler em “Agnes Grey” mais do que uma versão suavizada demais e altamente marcada pela religiosidade que Anne apresentou em toda a sua vida, de “Jane Eyre”, faltando-lhe a paixão, a emoção e mesmo a crueldade que Charlotte conseguiu incutir na sua obra e que, mais ainda, Emily conseguiu imprimir em “Monte dos Vendavais” (“O Morro dos Ventos Uivantes”, versão brasileira).

Anne nasceu a 17 de Janeiro de 1820, no mesmo ano em que a família se mudou para Haworth onde o reverendo encontrou uma posição que viria a ser vitalícia.

Quando tinha pouco mais de um ano Anne perde a mãe e muito pequena ainda as duas irmãs mais velhas. Manifestou precocemente particular inclinação para a religião, o que se manifestou na sua atitude perante a vida, perante a própria morte, contra a qual lutou com um seguimento estrito dos conselhos médicos e fervor religioso, e na sua escrita.

Gondal foi o mundo imaginário que Anne e Emily partilharam durante muitos anos e a relação entre as duas foi sempre muito próxima embora seja sugerido que Anne ficou muito chocada ao ler “Monte dos Vendavais”, o que terá decerto criado uma tensão entre as duas. De facto visto a obra é tudo excepto uma história de personagens piedosas e com cunho religioso, é uma história de obsessão, vingança e de um amor demasiado intenso para ser considerado socialmente aceitável para a época, e seria natural que tivesse incomodado a alma de Anne.

Em 1840 Anne é aceite como governanta para a família Robinson onde trabalha durante três anos antes Branwell ser também contratado como tutor, criando uma situação difícil que leva a que em 1845, provavelmente antevendo o desfecho triste da situação, ela tome a decisão de sair da posição, voltando para casa, sendo pouco depois seguida pelo irmão que é despedido.

Em 1846, por incentivo de Charlotte que descobre alguns poemas de Emily e neles considera existir grande qualidade, as três irmãs lançam-se para a primeira publicação em conjunto. Sendo ainda uma época difícil para mulheres escritoras, as três irmãs escondem-se atrás de três pseudónimos: Currer (Charlotte), Ellis (Emily) e Acton (Anne) Bell e o livro de poemas é publicado em Maio. Diz-se que o motivo do uso dos pseudónimos era particularmente para evitar provocar sofrimento ao irmão Branwell que sempre quis reconhecimento pelos seus talentos artísticos, e raras vezes o encontrou em vida.

No ano seguinte o livro “Agnes Grey” é aceite para publicação juntamente com o “Monte dos Vendavais”, de Emily, enquanto “O professor”, de Charlotte, é recusado, sendo no entanto aceite “Jane Eyre” que ela escreve um pouco depois.

As críticas iniciais são fortemente focadas no “Monte dos Vendavais” devido ao seu tema controverso, mas “Agnes Grey” obtém um relativo sucesso, embora tenha sido bastante negligenciado face a “Jane Eyre”.

Em 1848 outro romance de Anne é publicado: “The Tenant of Wildfell Hall” (versão portuguesa “A inquilina de Wildfell Hall”) ainda sob o pseudónimo de Acton Bell.

Esse ano será marcado na vida de Anne pela morte de Branwell e, três meses depois, de Emily. Pouco depois Anne apresenta sinais de doença e vem a morrer a 28 de Maio de 1849, sendo enterrada em Scarborough, na costa, onde se encontra com Charlotte num esforço para se curar. Esta opta por enterrá-la ai, procurando poupar ao pai o sofrimento de assistir a mais um funeral de uma filha.

Legenda: Campa de Anne Brontë


Emily Brontë  


Legenda: Emily Jane Brontë



Emily Jane Brontë, a irmã Brontë de minha clara predilecção, nasceu a 30 de Julho de 1818.

Em 1824 entra no colégio interno juntamente com Charlotte, Maria e Elizabeth. Após a morte das duas irmãs mais velhas Emily e Charlotte são trazidas para casa e a educação delas passa a ser proporcionada maioritariamente pelo reverendo e pela tia, sendo posteriormente responsabilidade de Charlotte quando regressa da escola de Roe Head.

Embora seja conhecida como a irmã mais misteriosa e reservada, de quem pouco se sabe, há dados em relatórios escolares da época da introdução no ensino que a apontam como uma rapariga alegre e audaciosa. Com o tempo, no entanto, possivelmente devido à morte das irmãs, esta alegria parece ter-se findado e a grande paixão de Emily tornou-se passear pelas charnecas da zona, geralmente acompanhada pelos muitos cães que viveram com a família ao longo dos anos.

Tive pessoalmente a possibilidade de visitar essas mesmas charnecas (infelizmente não acompanhada por cães), de vislumbrar os campos aparentemente infinitos da zona rural onde Haworth se encontra, e atesto que a beleza e a liberdade proporcionada pelo lugar o tornam mais do que meritório de um passeio.

Legenda: Charneca em Haworth


Fiz o meu percurso com Emily na mente, reflectindo sobre a sua vida e sobre o que a teria motivado a escrever um romance como “Monte dos Vendavais”, uma das grandes questões da literatura das Brontë. Afinal, apesar de toda a dor e morte que cercou esta família, a maioria dos anos foram passados sem eventos extraordinários, sem contacto particular com o mundo exterior, particularmente Emily que sempre foi reservada, ao contrário de Charlotte cuja grande amizade com Ellen Nussey e as cartas trocadas entre ambas se tornaram uma das fontes de conhecimento mais ricas sobre a vida das Brontë.

Mas Emily parecia não ter a ânsia de conhecer o mundo e os outros, e apesar de em 1842 ter passado alguns meses a estudar em Bruxelas juntamente com Charlotte, regressou a casa após a morte da tia e, embora Charlotte tenha voltado, Emily preferiu ficar a cuidar da casa e da família.

Porquê então um romance como o “Monte dos Vendavais”?

Importa desde logo, para aqueles que ainda não leram a obra, resumir brevemente a história, ressaltando-se que é absolutamente impossível transmitir em meia dúzia de frases o conteúdo da obra, e alertando-se o leitor que pretende ler “Monte dos Vendavais” de que poderá ficar a conhecer parte da história que será sempre mais apreciada se lida na sua plenitude e portanto deverá saltar umas linhas se o quiser evitar.

Tentemos um resumo: trata-se de uma obra que abarca duas gerações. O patriarca da família Earnshaw parte em viagem e regressa com um órfão descrito como “cigano” a quem chamam Heathcliff, a quem se afeiçoa bastante, deixando o filho Hindley com inveja mas a filha Catherine torna-se companheira inseparável do pequeno órfão. Quando o patriarca morre Hindley aproveita o poder herdado para humilhar Heathcliff, o que leva este a tornar-se mais rude e reservado. Catherine, uma menina impetuosa, mimada e egoísta, cuja relação com Heathcliff é sempre conturbada pelos seus excessos, vê neste rebaixamento social dele um impedimento para um futuro partilhado e deixa-se encantar por Edgar Linton, um rapaz de boas famílias e com meios financeiros e estatuto social. Numa noite, em conversa com a governanta, Catherine fala sobre o que a afasta de Heathcliff e indicia o seu interesse em casar com Edgar Linton, mas não sabe que Heathcliff está a ouvir e, magoado pelo que ouve, este desaparece.

Entretanto Catherine casa com Edgar e passado algum tempo Heathcliff regressa, rico e poderoso. Catherine tem uma filha, também chamada de Catherine, e morre pouco depois. A última conversa entre Catherine e Heathcliff é de uma intensidade tal que é apenas suplantada pelo monólogo que Heathcliff faz pouco depois, falando com o espírito dela. Heathcliff decide então vingar-se de Hindley, que o tinha humilhado desde a morte do pai e de Edgar.

A segunda geração é composta pela filha de Catherine e Edgar Linton, Hareton, filho de Hindley, criado por Heathcliff, e Linton, filho de Heathcliff e Isabella, irmã de Edgar, com quem Heathcliff casa apenas como vingança contra Edgar. A vingança de Heathcliff continua ao casar Linton com Catherine.

Apesar do teor obsessivo e atormentado da obra o final é de certo modo redentor.  

Os temas controversos e o amor obsessivo representados na obra, a presença da morte e da vingança, entre outros aspectos salientes na obra têm levado muitos autores a aventurar hipóteses sobre como foi possível Emily Brontë, essencialmente isolada, com contacto muitas vezes apenas com a família próxima, na época histórica na qual se encontrava; escrever esta história.

A verdade é que nunca haverá uma resposta concreta. Seria a imaginação de Emily tão poderosa ao ponto de imaginar um sentimento tão intenso, tão diverso da educação que lhe foi proporcionada por um pai religioso e uma tia conservadora? Não pode esquecer-se que Emily, assim como as irmãs, era profundamente educada e tinha acesso a diversas obras de literatura que poderiam ter-lhe proporcionado os conhecimentos necessários para imaginar uma história tão poderosa. Maggie Berg, por exemplo, em 1996 escreve sobre o “Monte dos Vendavais” e sugere que a personagem do Heathcliff é fortemente marcada pela produção de Byron de “anti-heróis”.

Mas seria o suficiente? Ou teria Emily realmente amado? Teria Emily experimentado as sensações sobre as quais escreve com tanta mestria?

Sarah Fermi escreveu em 2006 (infelizmente sem versão portuguesa) uma versão ficcional do diário de Emily Brontë fundamentando-se em registos da paróquia, biografias, cartas, entre outros materiais geralmente utilizados por historiadores. O objectivo de Fermi é, como a mesma indica, criar uma ficção que faça sentido e seja inteiramente possível. Como muitos (eu mesma incluída) a autora não acredita que o “Monte dos Vendavais” seja resultado apenas de imaginação, mas sim que Emily amou e perdeu, considerando possível que Emily se tenha apaixonado por um rapaz de uma família pobre da zona chamado Robert Clayton. Provas concretas e definitivas não existem mas a investigação encetada pela autora levou-a a descobrir que este jovem era praticamente da idade de Emily e vivia num local onde facilmente poderia ter cruzado o caminho de Emily nos seus muitos passeios pelas charnecas. A morte do rapaz aos 18 anos coincide com precisão com uma mudança perceptível no teor da poesia de Emily que, de temas relativos à natureza e outros de teor pouco sombrio passa a focar particularmente a morte e o sofrimento. É de facto possível que este romance tenha acontecido e a historiadora apresenta factos convincentes, embora tenhamos de aceitar (tanto eu quanto ela) que a verdade nunca será conhecida.

A única relação da qual existe certeza é a amizade profunda que ligava Emily e Anne, que partilhavam o mundo imaginário de Gondal, mas um outro amor de Emily (assim como das irmãs) eram os animais, sendo conhecida pelos seus longos passeios com os cães que sempre acolheram na casa. Vários dos seus desenhos (pois para além de brilhante na escrita tinha também talento no desenho, tal como Charlotte e Branwell) ocupam-se de animais, sendo particularmente tocante o retrato de Grasper de 1834, o de Keeper de 1838 e a aguarela de Flossy, o cão de Anne, de 1843. Nesta última obra o movimento que Emily incute na imagem é absolutamente perceptível e o observador quase consegue sentir o vento e ouvir os latidos de contentamento do animal.








Em 1846, apesar de alguma resistência por parte de Emily, as irmãs publicam os seus poemas, sob pseudónimos, mas o livro é um fracasso e passa completamente desapercebido ao público e críticos. No entanto o fracasso aparente não pareceu desmotivar as irmãs que, no ano seguinte, publicam os seus primeiros romances: “Agnes Grey” (de Anne Brontë), “Monte dos vendavais” (de Emily Brontë) e “Jane Eyre” (de Charlotte Brontë). As duas primeiras obras foram publicadas num mesmo volume e infelizmente tiveram críticas diversas. “Monte dos Vendavais” foi fortemente criticado pelo seu teor sombrio, tendo mesmo sido apelidada diversas vezes de obra “estranha”, “não artística”, “horrível”, “repulsiva”, entre muitas outras críticas semelhantes. Em 1848 um crítico publicado na “Paterson’s Magazine” aconselha mesmo os leitores a ler “Jane Eyre” mas a queimar “Monte dos Vendavais”! No mesmo ano na “Graham’s Lady’s Magazine” lê-se sobre o “Monte dos Vendavais”: “é uma combinação de depravação vulgar e horrores perversos”… (tradução não oficial).

Deve no entanto ter-se em consideração o teor do “Monte dos Vendavais” e a época histórica na qual foi publicada. O horror provocado pela descoberta de que a autora era na verdade uma mulher terá sido ainda mais chocante para o público comum do que se no caso de obras como “Agnes Grey”, claramente moralista e dentro das regras sociais aceitáveis na altura. Mesmo “Jane Eyre”, apesar de tocar em alguns temas mais controversos, reflecte uma sanidade social que falha (e tão magistralmente) a “Monte dos Vendavais”.

Resta à imaginação se, tivesse vivido, Emily Brontë seria capaz de repetir a façanha e escrever outro romance tão marcante quanto o seu primeiro. Charlotte Brontë acreditava que sim, dizendo mesmo que: “Se tivesse vivido, a sua mente teria crescido como uma árvore forte, mais elevada, mais direita, esparsa, e os seus frutos teriam amadurecido e alcançado um viço refulgente” (tradução não oficial). Charlotte diz ainda que apenas o tempo e a experiência poderiam influenciar Emily visto que ela não era “submissa” à influência dos outros. Este comentário da irmã que tanto conviveu com ela leva-nos novamente a questionar: teria sido “Monte dos Vendavais” apenas o resultado de imaginação e influência literária?

Dos últimos meses da sua vida conta-se que se recusou a deixar abater pela doença, tendo insistido em manter a lida doméstica, estóica no seu sofrimento.

Emily deixa a vida a 19 de Dezembro de 1848 no sofá da sala da casa da família em Haworth, vítima de tuberculose, doença que desenvolveu, irónica e lamentavelmente depois de ter apanhado frio três meses antes no funeral do irmão.  



Charlotte Brontë   


Legenda: Charlotte Brontë



Charlotte Brontë nasceu a 21 de Abril de 1816 e é sem dúvida a irmã Brontë sobre a qual mais se tem escrito e mais se sabe. Sem dúvida que, por haver mais e mais ricas informações sobre ela, a tarefa tem sido facilitada aos historiadores que sobre o tema se têm debruçado. Entre eles ressalta-se sem dúvida a obra de Elizabeth Gaskell, que em 1857 publicou “A vida de Charlotte Brontë ”, uma biografia na generalidade cuidada e sem dúvida de interesse para qualquer historiador das Brontë, mas que falha no distanciamento emocional que é tantas vezes necessário para uma boa biografia. De facto, ter conhecido Charlotte e conviver com o reverendo assim como com o marido de Charlotte impediu Gaskell de se aventurar em questões que seriam importantes para a compreensão da complexidade da escritora, tal como o relacionamento (platónico ou não, correspondido ou não) de Charlotte com Héger, um professor casado na escola onde estudou e leccionou no seu período em Bruxelas. Outras biografias de interesse (só para salientar algumas) são, por exemplo: “Charlotte Brontë ” de Winifred Gérin; “Charlotte Brontë: uma vida apaixonada” de Lyndal Gordon e “Charlotte Brontë e a sua família” (tradução não oficial) de Rebecca Fraser (nenhuma destas obras tem, a meu conhecimento, versão em português).

 Grande parte do conhecimento disponível sobre Charlotte advêm das cartas trocas com Ellen Nussey, que conheceu em 1831 aquando da sua entrada no colégio interno “Roe Head”, onde também conheceu Mary Taylor, cujas cartas viriam também a trazer à tona informações relevantes relativamente ao seu percurso literário, algo de que raramente falava com Ellen Nussey.

O seu período neste colégio é particularmente importante para Charlotte, não apenas pelas amizades que viria a manter por toda a vida, mas também pelos conhecimentos adquiridos que lhe deram aptidões para vir a ensinar as irmãs em casa.

Em 1835 regressa à escola não como aluna mas como professora, levando Anne como aluna, mas em 1837, devido a esta estar gravemente doente, Charlotte decide deixar a escola, voltando no ano seguinte por apenas alguns meses. Trabalha então como governanta com várias famílias, até que em 1842 vai para uma escola em Bruxelas com Emily como estudantes.

O período em Bruxelas é fortemente marcado pela paixão de Charlotte por um professor casado da escola, um encantamento que a leva a escrever “O Professor” e está também presente em “Jane Eyre” nomeadamente no facto de Rochester, o objecto de amor de Jane Eyre, como se vem a descobrir no mais impróprio dos momentos, ser casado.

Ao regressar as três irmãs tentam criar uma escola na casa mas também esse plano falha, devido à localização mas também à pouca reputação estabelecida pelas irmãs.

Tendo sempre sido a impulsionadora das relações da família com o mundo exterior, é natural que tenha sido Charlotte a propor e incitar as irmãs a publicar o livro de poemas e aquando da tentativa de publicação dos romances, ao invés de se deixar desencorajar pelas várias rejeições à sua obra “O Professor” (que só viria a ser publicado postumamente), escreveu “Jane Eyre” cujo reconhecimento foi imediato.

Até hoje “Jane Eyre” é reconhecida como uma obra de realce da literatura inglesa, e é lida por todo o mundo. Foi esta obra que me introduziu no mundo das Brontë, ainda criança, embora o arrebatamento tenha acontecido apenas ao ler “Monte dos vendavais”.

“Jane Eyre” conta a história de uma órfã durante os difíceis anos de colégio interno até se tornar governanta numa casa onde se apaixona pelo patrão, mas a descoberta de um segredo impede o casamento de ambos. A distinção deste romance encontra-se tanto na força da personagem feminina, central no enredo, como na fuga ao óbvio e ao fácil na conclusão do romance. Se é verdade que Jane Eyre casa com o patrão, também é verdade que ambos perdem muito para chegar a esse ponto. A presença de algum suspense traz também um brilho ao romance que o distingue, por exemplo, de “Agnes Grey”. E com todo o sofrimento e as perdas acompanhamos o crescimento de Jane Eyre até se tornar numa mulher confiante e capaz.

Pode reflectir-se ainda sobre se Charlotte terá sido a mais ou a menos afortunada da família. De facto, viveu até mais tarde, atingiu quase os quarenta anos e chegou a casar em 1854 (com Arthur Bell Nicholls), algo que nenhum dos irmãos tinha alcançado. Foi reconhecida pelo seu talento ainda em vida, e sabe-se de pelo menos um pedido de casamento prévio. Viajou, conheceu pessoas, e foi parte do movimento literário da altura. Sem dúvida Charlotte Brontë viveu. Mas que triste sina a sua a de assistir à morte e enterro da mãe, das duas irmãs mais velhas, e anos depois do irmão e de Emily no mesmo ano, para um ano depois ver ainda morrer Anne? Que sina a de casar por apenas 9 meses e morrer tendo no ventre um filho que nunca chegou a viver?

Penso frequentemente nas tragédias da família Brontë e tento imaginar (exercício inútil) o sofrimento que Charlotte carregava. Tento imaginar ainda (outro exercício inútil) o sofrimento do Reverendo ao perder a sua última filha, de quem muito se aproximou particularmente nos últimos anos.

Charlotte Brontë morreu a 31 de Março de 1855, em inicio de gravidez, sem comemorar sequer um ano de matrimónio com o homem que terá inicialmente rejeitado mas com quem se diz ter alcançado alguma felicidade.

A sua biografia começou a ser produzida por Gaskell pouco depois, a pedido do Reverendo. É publicada em 1857, assim como o romance “O professor”, previamente rejeitado pelas editoras. Outra obra sua, inacabada, “Emma” é publicada também postumamente em 1860.





Nota sobre Haworth e o museu Brontë



O museu das irmãs Brontë (Brontë Parsonage Museum) é visitado todos os anos por milhares de pessoas, e está localizado em Haworth, uma vila no condado de Yorkshire, Inglaterra. A vila é pequena e apesar de estar já repleta de lojas com produtos turísticos, ainda tem um interesse muito genuíno, com ruas difíceis de subir e caminhos de pedras que são infelizmente muito escorregadias com a chuva.

A casa em si encontra-se ainda com a maioria da mobília da altura, incluindo o sofá onde Emily terá morrido, e está maravilhosamente conservado. Encontra-se lá também o quadro pintado por Branwell das irmãs e onde primeiramente ele estava incluído, tendo optado depois por se “apagar”, deixando uma sombra espectral.


Legenda: Quadro das três irmãs Brontë pintado por Branwell



Parte da casa está ocupada com exposições temporárias, e objectos relativos às Brontë, como as pequenas revistas escritas sobre os mundos imaginários dos irmãos, retratos realizados por Branwell, desenhos de Charlotte e Emily, um vestido de Charlotte, entre muitas outras coisas. É sem dúvida uma visita inevitável para qualquer apaixonado pelas Brontë.

Em frente à casa encontra-se uma pedra inscrita: “Este foi o local do portão que levava à igreja usado pela família Brontë, e pelo qual foram carregados para o seu descanso final”. (tradução não oficial).



Encontra-se aí também o cemitério, o que consagra ao local um aspecto lúgubre, mas completamente apropriado, e pouco adiante pode encontrar-se a Igreja onde um pilar tem a inscrição: “o jazigo da família Brontë está situado por baixo deste pilar, perto do lugar onde o banco dos Brontë estava na igreja antiga. Os seguintes membros da família foram enterrados aqui: Maria e Patrick, Maria, Elizabeth, Branwell, Emily Jane, Charlotte.” (tradução não oficial).



Passeei pelas charnecas e tive a oportunidade de tirar fotografias fantásticas, porque o lugar é realmente lindo, agreste, ilusoriamente infinito.

As ruínas de Top Withens que dizem poder ter sido a fonte de inspiração para a descrição da casa de “Monte dos Vendavais” são uma grande desilusão e realmente as semelhanças são difíceis de encontrar, não havendo qualquer informação concreta que suporte a ligação, pelo que não merece a descida agreste necessária para lá chegar. O caminho para as cascatas das Brontë (onde também nenhuma ligação concreta com as irmãs existe) é relativamente difícil, particularmente em dias de chuva, mas vale a pena pela paisagem magnífica que temos oportunidade de saborear até lá.

Imaginei Emily com os seus cães, as irmãs a desenhar sentadas numa das pedras que parecem ter sido criadas para esse efeito, e contemplei a imensidão do lugar que quase nos domina e compreendi, ao menos em parte, a imensidão da vida das Brontë.





Obras consultadas:



Gérin, W. (1978). Emily Brontë. Oxford: Oxford University Press.

Fermi, S. (2006). Emily’s Journal. Cambridge: Pegasus.

Barnard, R. (2000). Emily Brontë. London: The British Library.

Bentley, P. (1960). The Young Brontës. London: Max Parrish

Gordon, L. (1995). Charlotte Brontë: a passionate life. London: Vintage

Barker, J. (1997). The Brontës: A life in letters. Suffolk:Viking (Penguin group)



Nota: quando indicado “tradução não oficial” é porque eu traduzi directamente do inglês.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O enterro - prólogo


Velávamos a minha mãe na sala grande, quando o meu pai chegou.

Assim que ouvi o pesado ranger da porta principal, corri até ele, pensando prepará-lo para o que acontecera, mas fui pouco ágil, assustada com as suas feições cansadas, com as suas roupas imundas e com o mancar inédito da sua perna direita.

Quis perguntar-lhe o que lhe acontecera pelo caminho, mas o cheiro das velas, as orações proferidas baixinho, ou mesmo o cheiro a morte que emanava da sala, alertaram-no para o sucedido. Lembro-me perfeitamente de o seu rosto ter-se contraído antes de me empurrar violentamente para o lado e ter entrado na sala, apesar de lhe rogar que esperasse.

Talvez por medo não o segui imediatamente. Não queria encontrar o meu pai no pranto que adivinhava pelos gemidos que escaparam pelas frestas da porta. Não queria, como desconfio que fez, vê-lo abraçar freneticamente o cadáver de minha mãe, tão calmamente colocado no caixão por Teresa. Não queria ver as manchas de terra que trazia na roupa corromperem o imaculado do vestido que tornara a sua esposa no mais belo anjo prestes a encontrar Deus. Não queria vê-lo afastar do seu regaço as flores mais belas que tínhamos colhido, minha irmã e eu, nessa tarde, no jardim onde tantas vezes passeávamos as três.

Por mais que tentasse abafar o egoísmo, negava-me a vê-lo destruir a paz que apesar do desgosto, conseguíramos manter. Escondi-me como em criança, no vão da janela mais próxima, tentando controlar a minha vontade de gritar-lhe, e só depois de estar certa de poder apoiá-lo saí, para reentrar na sala, onde os meus pressentimentos se tinham sem dúvida cumprido.

Apanhei pacientemente do chão as flores que antes a cobriam, e voltei a depositá-las sob o seu corpo inerte, procurando ocultar as manchas de terra que meu pai deixara.

Ele manteve os dedos grosseiros entrelaçados com os dela, até que, auxiliada por Teresa, o convenci a subir e lavar-se.

A madrugada ainda estava longe. Ainda havia muitas horas a suportar naquele sepulcro.

Carregámo-lo pelas escadas acima e deixei-o com Teresa, enquanto procurava a minha irmã Clara que ficara no quarto das brincadeiras com os filhos dos vizinhos que tinham vindo velar nossa mãe.

Por mais que eu tivesse tentado explicar-lhe o que acontecera parecia que se esforçava por não compreender, incapaz de aceitar a verdade. Tomara eu ter ainda idade para me refugiar num mundo de poções mágicas que dariam vida novamente a nossa mãe... Mas eu já não era criança. Era uma mulherzinha que, por mais que sofresse, tinha prometido honrar a memória da mãe com coragem. Talvez mais tarde chorasse, talvez não.

Por mais que sentisse um rio de lágrimas a rogar-me para jorrar, neguei-me, com a tenacidade pedida pela minha mãe, pronta para embalar minha irmã e confortá-la de uma dor que não merecia conhecer tão criança.

Foi o que fiz quando a vi, olhando pela janela para a escuridão dos jardins. O seu olhar, de um azul límpido, parecia escurecido pela confusão e sofrimento, e o cabelo parecia pouco cuidado. Eu acostumara-me a pentear-lhe os cabelos claros todas as noites, mas nessa noite tinha tido o cabelo da minha mãe para compor, e não lhe tinha prestado esse carinho. A Clara era menina ainda, muito pequena, mas antevia-se no seu temperamento uma calma e placidez que a acompanharam por toda a vida. Não era alegre, não do jeito das crianças que gargalham com tudo e que gostam de brincar e correr pelos campos, mas a sua presença enchia-nos de uma calma fascinante. E foi com essa expressão de calma mas os olhos repletos de uma dor nova, que a encontrei, alheia às brincadeiras das outras crianças que estavam no quarto. 

Embalei-a como a um bebé, buscando no meu coração as melhores palavras para a confortar. Creio que lhe disse que a nossa mãe nos amava demais para nos deixar, e que por isso estaria a proteger-nos do seu cantinho especial junto a Deus. Depois, talvez temendo que ela a viesse a esquecer pela tenra idade, prometi que todos os dias falaríamos dela, para que ela não morresse nas nossas recordações. Um pouco mais animada pediu-me, com um sorriso triste, que lhe contasse a história que nossa mãe costumava contar para adormecermos, um velho conto de fadas com um final feliz. E foi assim que ela adormeceu nos meus braços, de rosto húmido pelas lágrimas da resignação.

Fiquei a olhar para ela durante muito tempo, a embalá-la em silêncio, até que senti que deveria ocupar-me das minhas outras responsabilidades.

Desci então até à sala grande onde o estado apático de meu pai, segurando os dedos finos da esposa de encontro à sua face contorcida em lágrimas, me comoveu de tal modo que não aguentei ficar. Chamei discretamente Teresa para me acompanhar e fomos juntas para a cozinha, onde me sentei em frente à enorme lareira procurando aquecer o frio que tomara a minha alma. Por fim foi o colo maternal de Teresa que abriu os diques que impediam as minhas lágrimas de correr.

Chorei até ao amanhecer no seu regaço, com o som da sua voz a embalar os momentos em que, exaurida, dormitava.

Pela janelinha estreita junto ao fogão percebi o amanhecer e levantei-me, para servir uma simples refeição da manhã aos enlutados, antes do enterro. Depois da refeição, voltámos para a sala grande, fechámos o caixão e rezámos uma última oração de corpo presente.

Fui eu quem colocou sob a face exangue da minha mãe um pequeno lenço rendilhado que ela trouxera da sua infância antes de, pela última vez vislumbrar o seu corpo. Seguimos então o caixão carregado por quatro criados, até ao pequeno cemitério da família, para lá dos jardins ao redor da casa grande.

No dia anterior à nossa partida levei Clara ao túmulo de nossa mãe. Saímos da casa grande e seguimos pelos jardins, andando devagar, e colhendo flores pelo caminho. Para lá dos jardins entrámos pelo portão do cemitério e sentámo-nos num banco perto do túmulo da nossa mãe durante muito tempo em silêncio. Depois ajoelhamo-nos, depositámos as flores sob a pedra gélida, rezámos e falámos com a nossa mãe e, por um momento, quase que acreditei que nos ouvia. Talvez estivesse mesmo a ouvir, não sei...
Por muitos anos não pude voltar à sua campa mas ainda me lembro distintamente do cheiro de terra húmida e de lavanda que emanava do cemitério naquela tarde.


Um instante

Um instante
Um instante apenas
Num oceano de vidas que nos passam ao lado
Um breve conto num romance grande demais
Um segundo em anos de espera

Um milagre, magia inesperada
Um toque que faltou e não fez falta,
Um sorriso dado na solidão menos só,
Palavras vãs que nos agasalham ainda...

Um sentimento discreto, arrebatador,
Uma loucura doce e bela,
Um sonho ambicioso demais

Um adeus que custa a nascer,
Que ninguém é capaz de pronunciar
Uma ânsia ainda forte, uma sede que nos exaspera

Um adeus que ecoa nas mentes,
Que fere o peito,
Um adeus que não somos capazes de dizer.

Ilha de Wight




A mar e Canela… - Capítulo I





A mar e Canela…

Capítulo I



Parecia um anjo, descendo pela praia, quase sem pisar a areia gélida daquela manhã de Inverno.
Um velho pescador observava-a ao longe, envolto na sua gabardina amarela, recordando como de costume a vida que tivera até há muitos anos atrás, uma vida que lhe avivava recordações tão tristes quanto doces.
Reviveu na menina a visão da sua amada, descendo pela praia, tentando descortinar a chegada do seu barco. Quando ele regressava após meses de pesca no alto mar sabia que ela o esperava, ardente como uma menina, ansiosa por tomá-lo nos braços e apagar as rugas de dor e cansaço. Ao longe via-lhe a silhueta, acenando o velho xaile garrido, para que, mesmo ainda longe da costa, ele tivesse a certeza de que ela estava ali, impaciente. Assim que descia do seu barco, ela jogava-se nos seus braços e ele levava-a ao colo para a casinha no alto das dunas, de onde todos adivinhavam que durante dias não sairiam. Fechava-se a casa e abrigavam-se num ninho de amor que ninguém se atrevia a perturbar.
Há mais de meio século a história havia mudado. A solidão havia-se instalado no seu coração e prometera nunca mais sair. Voltara, como tantas outras vezes, saudoso do aroma de Clara, sôfrego dela, mas ao longe não viu nem um ténue aceno do xaile garrido. Desembarcou e vislumbrou o horizonte, rezando intensamente pela visão da mulher de braços abertos, como sempre prontos a recebê-lo no colo. Rogou aos céus desesperado pela visão do seu peito palpitante, desejoso de sentir a sua cabeça cansada... Mas não havia ninguém que o esperasse. Subiu apressadamente até ao alto das dunas, com a respiração entrecortada e o peito acelerado. Irrompeu pela casa, passou pelo pequeno quarto e pela cozinha, chamando a medo pela esposa, quase em prece, e chegou por fim ao jardim. Não encontrou Clara, plantando ou estendendo a roupa, pela primeira vez esquecida de o ir buscar, como tentava acreditar até chegar ao canto do jardim menos florido, descuidado. Encontrou apenas mais uma campa, junto à do seu filho, morto poucos dias depois de nascer há vários anos.
Durante muito tempo, como sempre que regressava, as janelas da sua casa não se abriram, nem ninguém se atreveu a procurá-lo. Limitavam-se a lamentá-lo, por vezes observando de longe os seus passos desesperados pela noite, outras ouvindo os seus soluços. Sabiam-no abraçado à campa da esposa. Muitos temiam por ele, mas ninguém se atrevia a consolá-lo. Naquela terra todos tinham sido testemunhas daquele amor e sabiam que só a ele cabia aquela dor. Mas ele, por mais as vezes que entrasse no mar, decidido a acompanhar a sua mulher e o seu filho, não se afogara. Um cansaço enorme tomou conta de si mas, meses depois, partiu novamente para o mar. Partiu e regressou vezes sem conta, até não ter mais forças para lutar contra as turbulências do mar irado e se acomodar à vida em terra.
Com o tempo a partida tornou-se doce, ao mesmo passo que a mente ficava fraca. Beijava o velho xaile encarnado, crente de beijar os lábios da sua esposa amada. O regresso voltou a ter a alegria de antes, quando pela primeira vez vislumbrou um ténue fantasma do garrido aceno da sua amada no horizonte.
Não interessava que na terra se dissesse que enlouquecera. Acreditava que a mulher esperava por ele, até ao seu último regresso a casa. Clara costumava dizer-lhe, nas noites que passavam agarrados saciando as saudades, que esperara por ele toda a vida, e continuaria a fazê-lo, para sempre. Ele manteve a fé de que o caminho que a mulher tinha escolhido quando ainda era apenas uma menina não fosse alterado apenas porque o corpo descansava na terra húmida.
As lágrimas escorriam pela face do anjo que, sem pressa, descia a praia. O velho pescador pensou em ir confortá-la, mas lembrou-se que a dor é para ser saboreada na solidão, e afastou-se. Largou a rede que estava a consertar e caminhou na direcção oposta, para o seu próprio canto no alto das dunas.
O vestido branco pairava ao sabor do vento, inconsciente da beleza do voo que desenhava no espaço. Rosália chorava as lágrimas que há tanto tempo prometera não chorar. Prometera, sincera, ao homem que a arrebatara da sua existência infantil. Acreditara nas suas próprias palavras, pensara ser capaz de conservar a sanidade se pudesse ser, por uma vez mais ao menos, completamente dele.
Agora, ali em frente ao mar, reconhecia o seu engano e lamentava-se porque o deixara partir. Tivera-o no seu corpo, e ele levara-lhe a alma e a vida. E partira, sem olhar para trás, inconsciente do mal que lhe fizera ao amá-la.
No horizonte o Sol feria-lhe os olhos com o seu mágico dourado de morte, anunciando a chegada da noite. “Na escuridão” – pensou – “vou ser capaz de mergulhar”. Esperaria por ele noutra vida, se a houvesse. Talvez numa vida em que o destino a pudesse presentear com mais do que breves instantes de deleite e magia cujo peso teria de carregar por toda a vida.
Talvez o devesse procurar ou esperar mais um pouco, ainda pensou... Fechou os olhos e teve de fazer um esforço para relembrar o que decidira. Ele tinha ido para não voltar. Não tinha ouvido as preces que ela lançara ao mar quase todas as noites desde que soubera. Não valia a pena esperar mais ou sair em busca dele. Já tinha esperado demais. Tinha acreditado realmente que ele ia voltar e esperara, com o entusiasmo a esmorecer-se ao longo dos meses.

O longo cabelo escuro ondulado desaparecia a cada instante da superfície, mas ainda assim o velho pescador duvidava se devia intervir na dor de alguém.
Um sussurro de Clara apressou-o a correr para a praia e a retirar do mar, estranhamente plácido nessa noite, a bela menina, quase enregelada. Levou-a, apertada de encontro ao seu peito, procurando agasalhá-la com a sua camisa, até à casa nas dunas.
Deitada à beira da lareira, as cores do rosto pareciam retornar instante a instante, mas, ao abrir os olhos, o velho pescador soube que errara em tirá-la do mar. A imensa dor ainda vivia e parecia capaz de a consumir. Talvez, em vez de salvá-la, a tivesse condenado a uma morte pior, uma consumição lenta, até o corpo ceder àquela tristeza que o olhar deixava entrever tão facilmente. Arrependeu-se, mas nunca seria capaz de negar um pedido de Clara. E, afinal um espírito devia saber melhor que um velho meio senil...
Mesmo acordada, a menina-anjo permanecia em silêncio, no limbo entre o alívio e o desespero. Tinha precisado de tanta coragem para se entregar no suave abraço do mar... Não sabia se seria capaz de o tornar a fazer. Mas não tinha outro caminho. Já sabia qual o seu destino, e não queria palmilhar esse trilho vazio, de tormentos e humilhações.
O velho pescador, fumando pensativo um cachimbo, acompanhava as suas calmas lágrimas em silêncio, o espírito há muito habituado à solidão.
Não partilhava a vida de outros pescadores, saia apenas para as mercearias, e outrora, para o mar. Há muito que vivia só, com os fantasmas do seu passado. Fora a forma que descobrira de ninguém lhe roubar a presença da sua mulher, convencendo-o de ser louco. Se o seu aroma rondando a casa, o seu calor de amante, e os seus sussurros eram apenas ilusão, preferia continuar mergulhado nela, até que Deus lhe desse o descanso eterno. Haveria alguma razão sã, em deixar a sua única alegria?

Depois de muitas lágrimas derramadas em silêncio, a frágil moça acabara por adormecer. Só quando o Sol se aproximava de atingir o seu pique, Rosália despertou, reavivada mas ainda fraca. Ao seu lado encontrou um pedaço de pão e leite, que comeu debilmente, sem alento.
Pensou em esperar pelo velho pescador mas não sabia o que dizer, como se explicar, que palavras usar para lhe dizer o que sentia ainda agora. Entendera pelo silêncio do velho que ele também não procurava uma explicação. E assim que terminou de arrumar os lençóis, e de lavar o prato do pão, saiu, sem saber o que diria se o encontrasse.
Ele que desde sempre acordara cedo, saíra para o conserto das redes ainda mais cedo que o habitual, e esperara até vislumbrar o vulto cândido da jovem a sair da sua casinha no alto das dunas. Depois voltara para o almoço, procurando eliminar da sua casa, da sua vida e da sua memória qualquer rasto da presença da moça. Já não partilhava uma palavra, um sentimento, há tempo demais. Esconderia de si mesmo o carinho que o fizera fugir da jovem adormecida. Estava velho demais para mudar.