sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Maré

Maré

Nosso amor é um poema inacabado,
Uma voz calada contra vontade
Uma maré que não se revolta no seu curso,
Uma esperança arrancada pela raiz.
 


Nosso amor é um sonho mal delineado,
Um castelo erguido no nada
Que o vento arranca com uma brisa suave
O nosso amor é o som de crianças,
 


O cheiro de flores colhidas há pouco
O brilho de um olhar apaixonado
O sorriso que nasce do peito


Nosso amor é o cheiro que falta,
O sabor que não conhecemos
A sede que nos guia um para o outro


O nosso amor é uma estrada com fim à vista,
É o esquecimento e a lembrança eterna
É uma demência doce demais...

Nosso amor é uma solidão menos só.



(Ilha de Wight)


Aprendi

Aprendi

Já há muito aprendi a amar ,
Já há muito aprendi a sofrer
Aprendi a não me entregar ,
E a saber esquecer...


Já há muito aprendi a fingir
Aprendi a aparentar rir
E por dentro não parar de chorar,
Aprendi a não os preocupar,
 

E a mostrar me como uma rapariga normal ,
Que dentro de si não sabe o mal
Que na vida irá viver...


Eles querem-me ver viver
Uma infância que há muito acabou
Desde que a minha felicidade terminou...






(Castelo Mendo)

Vazio

Vazio

Dentro de mim existe um vazio,
Que vivo a camuflar ...
Receio que descubram que quando sorrio,
Os estou a enganar...
 

Sei que me querem bem ,
Sei que até por vezes me admiram
Mas na verdade todos desconhecem
O quanto se enganam...
 

Nem sempre sou forte e invencível ,
Por vezes fico cansada de lutar
E só desejo um sitio para descansar,
 

Mas não posso ficar impassível
Perante os pedidos de socorro
De quem me ama e para eles logo corro...



(Arredores de Évora)


Perdão

Perdão

Grito pela noite adentro pelo perdão
Por sofrer e continuar a querer
Mas é culpa desta paixão
Que corrói todo o meu ser.
 

Ela diz-me para amar sem medo
Para a um alguém qualquer me entregar
Sem que antes tenha tempo para pensar
Se valerá a pena perder tudo
 

É um instante de delirar.
Um delírio que cedo esquecerei
Mas de que sempre me arrependerei . . .





(Hyde Park, Londres)

Melodia

Melodia

Ouça esta doce e terna melodia
Que me enche a alma
Duma infinita alegria
Por saber que como eu alguém ama
 

Ama verdadeira e sinceramente.
Que esta melodia sirva de exemplo
Da melhor maneira de amar crente
Que haverá sempre um templo


Erguido em nome do nosso amor
Que nunca deixará de sermos esquecidos,
Nem que sejamos lembrados como mendigos


Mendigos do amor de alguém, do calor,
da paixão crescente de um qualquer
Que no fundo, não nos ama , nem no quer . . .


(Castelo Mendo)

Infinita solidão


Infinita solidão

Uma voz chama-me ao longe ...
Quem és tu que me chamas assim,
Com tanta agonia, e logo a mim
Que não sou padre, santo ou monge?
 

Sou apenas uma infinita solidão
Num corpo humano, num corpo de mulher,
Sem poder sê-lo, senão quando a paixão
Me devaneia e me faz viver...
 

Sofro por tanto desejar e amar
Mas sei que por amor vale a pena chorar
Pois o amor nem sempre é felicidade eterna
 

Será que um dia o foi para alguém ?
Talvez para uma noite vem,
Dourar os nossos sonhos, talvez por pena ...
 
 




Isso não interessa



Isso não interessa


Perdoa-me, porque te quero demais.
Perdoa-me por te chamar a cada instante
Por te desejar em mim eternamente...
Perdoa-me por este sentimento demente,
Esta prisão que abraço insatisfeita,
Este sonhar-te à força da necessidade,
Este imaginar-te por falta de coragem...
 

Amo-te, mas isso não interessa.

Tenho-te no peito, ardente ainda,
Vivo como na primeira hora,
Nítido como naquela noite maldita...
Aquela noite em que me deixaste ir
Com as amarras esquecidas de rasgar,
Prisioneira do teu néctar de canela,
De homem divino...
 

Amo-te, mas isso não interessa.
 

Perdoa-me se não soube manter-te,
Se te afastei com meu desajeito,
Com a infantilidade que ainda tinha...
Perdoa-me porque não soube falar,
Não soube pedir, rogar, suplicar...
Suplico agora, no silêncio destas linhas
Que me olhes e adivinhes,
Que adivinhes esta dor que carrego,
Estas saudades, este desejo enlouquecedor...
Olha-me, minha loucura, e não me deixes só...
 

Quando quiser fugir, temerosa,
Não me deixes ir, segura firme meu abraço,
Suga dele toda a minha vida,
Deixa-me esvair de felicidade,
E só me abandones, morta, saciada...

Amo-te, mas do que interessa isso?






(Ilha de Wight)



Vida


Vida

Em que livro de páginas manchadas,
Marcadas a encarnado sangue,
Se encontram as minhas mágoas?
Que palavras gritam este vácuo, este desalento?
 

Que livro viçoso, de capa brilhante
Esconde os versos de salvação
Sentenças de auxilio divino?
Que me resta senão a busca?
 

Onde estás, felicidade?
Porque partiste tão cedo,
Sem mesmo me deixares tomar-te no peito,
Sorver-te como a um cálice de sangue redentor?
Porque te foste assim, num repente,
Sem me deixares nem bem memorizar-te,
Para mais tarde recordar-te,
Para desanuviares o meu peito negro,
Os meus olhos enevoados de mágoa?
 

Porque te foste? Não soube amar-te?
Amei-te demais? Era apenas o Destino?
É este o caminho a percorrer?
É por este trilho de desesperança?
Lá ao fundo, bem longe da vista,
Estarás à minha espera novamente?
Estás ai, felicidade? Esperas-me?
Perdi-te? Nada mais me resta?
Quanto tempo com esta tua sombria,
Cruel e aterradora Irmã?
Para sempre, minha dedicada amiga,
Que por tão pouco protegeste?
 

Este livro de páginas estranhamente carcomidas,
Queimado e sujo...
É este O meu livro?
É este o caminho?



(Lisboa)



Moribunda


Moribunda


E quando a minha menina já estava moribunda
E a dor de a carregar se tornou impossível de suportar
Depositei-a numa cova profunda
E parti sem sequer a tapar...
 

Os braços cansados do peso do seu cadáver perderam o alento
O peito já dorido de saudade perdeu a crença….
O corpo envelhecido pela tragédia dormiu ao relento
E o sorriso esmoreceu de mão dada com a esperança.
 

Minha menina, minha irmã, deixei-te numa cova profunda longe do rio
Olhei-te inerte na terra, os olhos firmemente cerrados
Depositei a minha última lágrima no teu regaço já frio
 

Deixei-te para poder sobreviver e caminhar feroz em solidão.
Trouxe comigo a memória dos nossos pecados
E o veneno da nossa separação…




(Campa de Chopin, cemitério Pére Lachaise, Paris)



O meu caminho…


O meu caminho...


Percorro o meu caminho silenciosa
Arrasto as minhas correntes resignada
Baixo o olhar a cada espinho sem rosa
E retenho as lágrimas a cada chibatada


Não grito, não rogo nem me deixo morrer…
Que virtude essa a que me escapa
A coragem de simplesmente perecer,
Desistir, libertar-me finalmente desta capa…
 

Couraça inquebrável de mulher de gelo
Que tocam sem tocar, que amam sem amar;
Mulher híbrida que evita um beijo singelo
 

E se deixa arrebatar em paixão carnal,
Sem palavras, nem emoção a abafar,
Prisioneira da sua cobardia visceral…




(Lisboa)

Estranho Marinheiro



Estranho marinheiro


Homem sem beleza usual, estranho marinheiro,
Olhos negros, tenebrosas grutas nesse poderoso olhar,
Marinheiro que traz no corpo o singular cheiro
À quente canela, pó sensual, e ao mar…

Esse mar que navega, incapaz de ficar,
O mar que o leva sem correntes
Porque há seres que não pertencem a nenhum lugar,
E esse tem uma ânsia pela liberdade que sei que já sentes

E que te aterroriza porque é impossível que já não o sintas…
Quando o fitaste ficaste completamente perdida,
És dele, inteiramente entregue à sede de o seguir…


E esse cárcere vai tomar-te para toda a vida,
Ainda que ainda não o saibas, esse marinheiro errante
Vai (como a mim!) povoar-te o pensamento todo o dia, tão ansiado amante…
 
 
 

Sempre ele…


Sempre ele...


Há um homem que é acima
Um ser estranho com poder de amante
Feio, tenebroso mas que fascina
Olhos negros de tempestade passante.



O mar corre-lhe nas veias, não sangue de gente,
O fogo arde-lhe no peito sem o consumir
As mãos calejadas têm a carícia quente
E os lábios o desejo de possuir…



Fita o seu olhar por um breve instante
Sustêm o sopro de vida nos pulmões
E a expiração já te dá por errante,



A alma parece sair de ti aos tropeções
És dele, estás perdida… Roubada… Tomada…
Desse homem estranho jamais deixarás de ser aprisionada…




(Lisboa)

Fugidia Paixão



Fugidia Paixão


Fugidia paixão que me inflama
Instantes em que tudo pára por um momento
Em que só nós estamos vivos e em chama
Corpos envolvidos no calor alimentado pelo vento,





Esse vendaval que do alto da colina
Nos trespassa com a sua implacável ferocidade
Nos desalinha e visceralmente domina,
Anima a alma fêmea e atiça a sensualidade




Encobre-te a Razão e os meandros do pensamento
Torna-te mais real, corpórea e sincera
Completamente entregue ao aprisionamento




Ao cárcere do corpo que se anima
Que não te permite expressar a quimera
Do instante vivido, que toda a alma te limita.




(Haworth)

Vida



Vida


A infância morreu-me ceifada com uma brutalidade dorida.
A adolescência soube-me a chocolate com um toque de menta,
Um doce que aconchega e espevita, que me acordou para a vida!
Fui então despedaçada por punhais, e apresentada à tormenta
 

Aquela em que ainda hoje vivo, a que ainda me obrigo a suportar,
Esta tormenta que vejo cada dia mais a todo o meu ser apagar…
Esta dor, a mágoa sem sentido que me faz querer a liberdade
De não ter amarras a uma vida que não me tem tido piedade…
 

Sem um elo, sem uma única ligação, sem a vergonha do fracasso,
Sem o medo aterrador de ser recordada como mais uma, frágil e sem valentia,
Um ser sem valor e sem magia, fruto de um sentimento de acaso,


Livre então, poderia saborear a liberdade de me deixar ir,
A sensação de fugir de cada instante de solidão que sobrevivo em cada dia,
A imensa emoção de me perdoar e desprender do vazio que continua sempre a ferir…
 


(Castelo Mendo)


Pirata



Pirata


Há um pirata que povoa os sonhos da menina que acorda mulher.
Para toda a menina, de olhos arregalados e tranças no cabelo,
Um pirata há a saquear e a pilhar a ilha que é esse puro ser.
E elas, que se deixam tomar ou resistem com corações de gelo,


Nunca esquecem o pirata, o homem de barba negra e olhos penetrantes,
Aquele que, de noite, as persegue com as mais belas promessas,
O que sabe quem elas são e os seus desejos mais atormentantes,
O que lhes sussurra que numa duna qualquer, as vai tomar sem pressas,
 

Percorrer os seus corpos de meninas devagar, cada pedaço como um mundo,
Cada sabor como o primeiro, cada toque como uma nova descoberta,
Sentir o cheiro de cada uma como se fossem uma flor aberta,


Perfumada e feminina, capazes de um desejo visceral profundo.
Para muitas o pirata dos sonhos depressa esvanece, morre numa batalha sem grandeza.
Para outras esse pirata vai ser príncipe de uma mágica, eterna e singular beleza…




(Londres)

Vingança


Vingança


Despedaçaram-se as tuas entranhas nas minhas mãos carmesim,
Rasguei-te de ponta a pavio, escancarei as tuas costelas sem hesitar
E esmiucei todas as miudezas dessa tua vida de inutilidade sem fim.
Senti a sensação da tua carne inerte por entre os meus dedos a escapar


E com o mais gutural dos sons deste mundo vazio, soube finalmente rir.
De ti, de mim mesma, da mágoa que carrego sem que tenhas sofrido um instante.
Agora és tão desgraçada quanto eu, estás tão ferida quanto a que quiseste ferir,
Quanto aquela que se deixou morrer um pouco a cada investida trucidante.


Vejo-te despedaçada pelo chão, chafurdo no sangue que te enchia de vida
E sou finalmente livre, capaz de me amar mais, de me amar melhor, sem pudor,
Capaz de me abraçar, encher de carinhos e merecer a alegria sentida.
 

Por fim encontro a paz, neste acto de impiedosa e justa crueldade,
E descanso o peito com o teu coração (já não palpita!) nas mãos apertado com fervor,
Extasiada com a emoção, a paz, a doce vingança da há muito morta ingenuidade.
 



Despedaçada


Despedaçada


Não sei esconder nem por um instante mais,
Não quero calar mais um segundo que seja,
Vou gritar até me doer a voz enquanto tu vais,
Implorar-te sem pudor que fiques onde quer que eu esteja.


Porque tu és parte de mim mesma, és mais Eu que Eu,
És uma pele que me cobre num abraço de falcão,
A manta que me protege sem a ternura de um véu,
A carne que se despedaça com todos aqueles que se vão,
 

Com todos os que me abandonam á minha sorte,
Sem compreender que na realidade me deixam á morte,
Lívida e plácida como o espectro que te anseia.


Já fui mulher e quis-te como demente,
Agora sou apenas um resto, um cadáver, uma carcaça feia
E quero-te, a esse Eu que fugiu sem deixar para o mundo, sequer um sonho, uma semente…



(Castelo Mendo)


Todos os poemas que escrevi com a mão cansada



Todos os poemas que escrevi com a mão cansada



Todos os poemas que escrevi com a mão cansada
Os inúmeros sonetos que sufoquei na garganta dorida
As sensações que escondi na solidão passada
Todas as sílabas que gritei dentro da alma ferida,


Todos os instantes em que me permiti viajar
Cada momento em que soube sinceramente sorrir
Até ao ultimo floco de alegria que de mim conseguiu brotar,
Até á seiva de prazer que de mim sou capaz de extrair,

Todo o meu Bem e o meu Mal, a negritude e a pureza,
Equilíbrio para todos os que te desconhecem, incompreensível,
Sentimento mágico de uma Harmonia sem qualquer delicadeza,

Antes um sentimento sem sentido, absolutamente invisível;
TUDO te pertence, nada é meu, nada de mim brotou,
Tu és a roda, o leme, o fundamento, tudo o que me gerou…




(Paris)