segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

História fabulosa da minha meninice



História fabulosa da minha meninice

Contaram-me em pequena uma história fabulosa
Que guardei no peito como um presente de Natal singular.
Carreguei-a comigo durante anos, e partilhei-a de forma generosa.
Acalentei essa história natalícia com o peito ainda incapaz de recear,

E fui menina com a história no peito e um sorriso crente.
Escrevi , desenhei e partilhei a minha fé com a ingenuidade das crianças,
E acreditei por muito tempo no seu poder transcendente. 
Mas um dia a meninice feneceu e hoje são distantes lembranças…

A história que me contaram em pequena era realmente fabulosa
Falava de uma menina que era amada e considerada por todos preciosa
Era uma menina que tinha um leito quente onde adormecer

E um regaço onde era prontamente acalentada
Uma menina que nunca precisou crescer e esquecer
Uma menina de cujos sonhos nunca foi roubada…

Boas Festas!


Desejos de Boas Festas para todos! 



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

XVI Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage‏


No dia 15 de Setembro de 2014 foram entregues os prémios aos vencedores do XVI Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, organizado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (http://www.lasa.pt/ ). 
Sob o pseudónimo "Mariana Algarvia" fui a vencedora da modalidade Conto, com um texto intitulado "Eu e tu nesta cama", uma história intimista sobre a espera e a esperança que escrevi do modo que melhor sei: com o coração na ponta dos dedos. 
Sinto-me honrada pela escolha unânime em premiar o meu conto, e em particular com as palavras do júri e autor João Reis Ribeiro, que na cerimónia de entrega dos prémios descreveu o meu conto como: 

"O que mais impressionou o júri foi a tónica da mensagem, repleta de esperança, e a qualidade da narrativa, assente numa fórmula de onde não estão arredias características do registo autobiográfico, seja pela própria modalidade escolhida para o texto, a do registo dos sentimentos do “eu” narrador, seja pela sobreposição de indicadores cometidos à narradora que foram vividos pela autora.
“Eu e tu nesta cama” é uma longa carta dirigida a um filho que está para nascer, escrita durante um processo de gravidez periclitante, em que o próprio registo narrativo pretende ser a afirmação de uma convicção de que tudo tem de correr bem, de que a criança terá de nascer e de que esta missiva, este conto, só fará sentido se encontrar o seu destinatário.
Trata-se de um texto fortemente marcado pelos deícticos de lugar, de tempo e de pessoa, acentuando a proximidade entre a mãe que espera o nascimento do filho, num estado de repouso e cuidado absoluto, tempo aproveitado para ser contada a história da gravidez e da vida, num processo de analepse que, simultaneamente, vai servindo para justificar decisões e para expor leituras do mundo.
Apesar de o mais importante deste conto ser essa ocupação da espera com o contar da vida a uma criança que possivelmente virá a nascer, outras linhas de leitura se podem seguir, tais como: a descoberta do outro num mundo estranho, as mudanças decorrentes de uma decisão de emigrar, a afirmação da identidade, o afecto à vida, a força da comunicação, a construção das cumplicidades num casal, as diferentes reacções ao mundo e à vida de acordo com o género, a dureza escondida pelo poder de certas metáforas.
Entre o início e a conclusão do conto corre uma distância emocional enorme, num processo de recuo que só pode encontrar justificação na construção dos alicerces de esperança e de coragem. No início, em curto parágrafo, é indicada a situação do presente da narradora, que vai explicar e condicionar todo o desenrolar da história: “Aqui estamos nós, presos a esta cama, presos um ao outro. Esta cama é o meu mundo agora, e tu estás aqui comigo, protegido dentro do meu corpo que teima em querer expulsar-te. Estamos os dois aqui a lutar com a mesma ferocidade para que venhas ao mundo.” O termo da narrativa aponta o caminho da esperança, ainda que numa retrospectiva levada até ao momento de felicidade em que a narradora se soube a gerar um ser: “Menos de três meses depois soube que estavas a crescer aqui dentro, e tudo pareceu tão fácil, tão certo, que não duvidei por um minuto que serias o meu maior milagre.”
Lê-se este conto e não se pode ficar insensível, seja devido à aprendizagem que nos é revelada – a de se começar a ser mãe ou pai, bem como a da dor surgida perante a iminência de um sonho se desfazer –, seja devido à energia jorrante de esperança que alimenta todo o monólogo. Lê-se este conto e não se pode ficar alheio ao facto de a decisão mais importante ter sempre uma relação com a vida, tal como a escrita que a regista, mesmo que os percursos e as visões sejam únicos e só existam no saber e na memória do eu que se expõe."


Agradeço as palavras e a consideração pelo meu trabalho, e deixo-vos aqui com um excerto do conto premiado, que será brevemente publicado juntamente com os trabalhos dos vencedores das restantes modalidades: 

"Aqui estamos nós, presos a esta cama, presos um ao outro. Esta cama é o meu mundo agora, e tu estás aqui comigo, protegido dentro do meu corpo que teima em querer expulsar-te. Estamos os dois aqui a lutar com a mesma ferocidade para que venhas ao mundo.[...]
Este quarto é o nosso mundo, e será o nosso mundo até poderes sair daí de dentro, onde te estás a agarrar a mim com unhas e dentes, sem perceber porque é que o meu corpo te quer expulsar. Meu filho, perdoa-me porque também não sei o porquê desta loucura. Perdoa-me porque a minha mente não foi forte o suficiente para te manter seguro e protegido, e agora temos tanto medo. "


 


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Campo singelo



Campo singelo de margaridas bravias e inocentes
Flores viçosas, alegres, criadas por entre o prado verdejante
Plantas felizes que, se pudessem mover-se, saltitavam contentes
Flores modestas, de beleza selvagem, veias de vida palpitante

Não viram o Sol subir, a cada dia mais um pouco, incapaz de adormecer
Astro flamejante que, sem saber conter-se, lhes cuspiu fogo abrasador
E dias passaram,  o verde esmoreceu e as margaridas viram-se escurecer
Até que um dia o Sol olhou para o prado e viu nele semeada bem fundo apenas dor

As estações sopraram vendavais, derramaram chuva furiosa, mas o prado renasceu
Despontaram devagar, um a um, amarelos e cor-de-laranja viçosos, verdes valentes 
Os narcisos estrangularam as raízes das plantas de dor, e cresceram orgulhosos e insolentes

Prontos para cobrir o mundo de cores e alegria, como um prado que a tudo já venceu
Não sabem que o vento os persegue, e que em breve os vendavais tudo vão arrancar,
E os narcisos vão ser soprados pelo mundo afora, e noutros prados vão vingar…



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Narciso bravio




Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
Prado frio e triste de terra quase estéril,  seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…